O mapa religioso brasileiro está mudando de forma acelerada, mas essa transformação não significa necessariamente que o país esteja se tornando menos religioso. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), em parceria com a Quaest, mostra simultaneamente a perda de espaço do catolicismo, o crescimento dos evangélicos e das pessoas sem religião e a permanência da fé como elemento presente na vida da grande maioria da população.
Segundo o levantamento, 50% dos brasileiros se declaram católicos, 29% evangélicos e 14% sem religião. Há ainda 3% vinculados a religiões afro-brasileiras, 2% espíritas e 2% pertencentes a outras tradições cristãs.
O relatório caracteriza o cenário como de crescente pluralização religiosa, com redução contínua do peso relativo do catolicismo e expansão dos evangélicos e dos brasileiros que não se identificam formalmente com uma religião.
Mas um dos resultados mais importantes da pesquisa aparece quando a filiação religiosa é separada da crença.

Sem religião não significa sem fé
Nada menos que 98% dos entrevistados dizem ter fé e acreditar em Deus. Apenas 1% afirma não ter fé nem acreditar em Deus, enquanto outro 1% declara ter fé sem necessariamente associá-la à crença em Deus.
A presença da religiosidade é expressiva até mesmo entre aqueles classificados como “sem religião”. Nesse grupo, aproximadamente 88% afirmam ter fé e acreditar em Deus. O próprio relatório chama atenção para o fato de que a fé não depende necessariamente da vinculação a uma religião formal.
O resultado ajuda a compreender o que está por trás do crescimento dos brasileiros que se dizem sem religião. A categoria não pode ser automaticamente tratada como sinônimo de ateísmo ou ausência de espiritualidade. Ela reúne também pessoas que mantêm crenças e práticas religiosas sem se identificarem institucionalmente com uma igreja ou tradição específica.
Bíblia permanece presente até entre os sem religião
Outro indicador reforça essa diferença entre pertencimento institucional e religiosidade.
73% dos brasileiros afirmam utilizar a Bíblia ou versículos bíblicos como forma de ensinamento para a própria vida. Apenas 27% dizem não fazê-lo.
Como seria esperado, o percentual é especialmente elevado entre grupos cristãos: chega a 92% entre pentecostais e 91% entre protestantes. Entre católicos praticantes, são 78%.
Mais surpreendente é o resultado entre quem não declara uma religião: 51% das pessoas sem religião dizem recorrer à Bíblia ou a versículos como forma de ensinamento. O relatório destaca que a Bíblia continua sendo uma referência para o cotidiano mesmo fora das comunidades religiosas formalmente constituídas.
Mudança passa pelas novas gerações
A transformação do perfil religioso brasileiro também tem um forte componente geracional.
Entre pessoas de 16 a 34 anos, os católicos representam 39%, os evangélicos, 33%, e os sem religião chegam a 19%.
A situação é bastante diferente entre os brasileiros com 60 anos ou mais. Nesse grupo, 65% são católicos, 22% evangélicos e apenas 8% se declaram sem religião.
Na faixa intermediária, de 35 a 59 anos, são 50% católicos, 29% evangélicos e 14% sem religião.
Para os pesquisadores, portanto, parte importante da mudança do perfil religioso brasileiro pode ser compreendida como uma transformação geracional: evangélicos e pessoas sem religião aparecem proporcionalmente mais entre os jovens, enquanto o catolicismo permanece muito mais forte entre os idosos.
Metade do país ainda é católica
Apesar da perda de participação relativa, o catolicismo continua sendo a maior religião do Brasil.
Dos 50% que se identificam como católicos, 31% da população brasileira se declara católica praticante e 19%, católica não praticante.
Entre os evangélicos, o maior grupo é formado pelos pentecostais, que correspondem a 21% da população brasileira. Protestantes representam 5%, enquanto os evangélicos sem igreja aparecem com 3%.
O detalhamento chama atenção porque revela que os pentecostais, isoladamente, já representam uma parcela da população superior à dos católicos não praticantes.
Comparação exige cautela
O relatório compara os resultados de 2026 com dados anteriores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No Censo de 2022, aproximadamente 57% da população se declarou católica, 27% evangélica e 9% sem religião. No levantamento ISER/Quaest, os números são, respectivamente, 50%, 29% e 14%.
Isso aponta na mesma direção da tendência histórica de redução do catolicismo e crescimento dos demais grupos, mas não significa que seja metodologicamente correto afirmar simplesmente que o catolicismo caiu sete pontos em quatro anos.
O próprio relatório ressalta que IBGE e ISER utilizam métodos de coleta e questionários comparáveis, porém diferentes.
Uma mudança de pertencimento, não necessariamente de crença
Os resultados sugerem que a transformação religiosa do Brasil não pode ser explicada apenas pela ideia de secularização.
O país está menos concentrado em uma única religião e aumenta a parcela de pessoas que não adotam uma identidade religiosa formal. Ao mesmo tempo, a crença em Deus, a fé e até referências explicitamente cristãs continuam presentes em proporções muito elevadas da população.
Assim, o crescimento dos “sem religião” parece contar apenas uma parte da história. A outra está na dissociação cada vez maior entre pertencer a uma instituição religiosa e manter crenças, práticas e referências espirituais.
A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil ouviu 15 mil brasileiros com 16 anos ou mais, por meio de entrevistas presenciais realizadas entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. A margem de erro geral estimada é de um ponto percentual, com nível de confiança de 95%.