Do ‘Bessias’ ao veto no Senado: como Jorge Messias esteve em duas das maiores derrotas de Lula

Episódios envolvendo Jorge Messias com 10 anos de diferença foram movimentos articulados por Lula que terminaram em desgastes
Jorge Messias e Lula
Indicação de Jorge Messias para o STF rejeitada pelo Senado é derrota histórica para Lula

A rejeição de Jorge Messias ao STF virou uma derrota histórica para Lula e reacendeu a memória do episódio do “Bessias”, em 2016. Nos dois casos, o nome de Messias apareceu ligado a movimentos institucionais importantes do lulismo que terminaram barrados. Em momentos diferentes, Messias acabou simbolizando limites impostos a Lula por outros centros de poder.

A rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal não foi apenas uma derrota administrativa do governo. Foi um revés político de grande escala, raro na história republicana e especialmente duro porque atingiu uma das prerrogativas mais simbólicas de um presidente: nomear um ministro do STF. A votação terminou em 42 votos contra e 34 a favor, abaixo dos 41 necessários para aprovação, tornando Lula o primeiro presidente em mais de 130 anos a ver um indicado seu ao Supremo barrado pelo Senado.

O episódio ganha dimensão ainda maior quando colocado em perspectiva histórica. Não é a primeira vez que o nome de Jorge Messias aparece associado a um movimento institucional importante de Lula que termina em frustração pública. Em 2016, no governo Dilma Rousseff, Messias apareceu como personagem involuntário de outros revés de Lula, quando ficou conhecido nacionalmente como “Bessias”. ocorrido quando uma gravação divulgada por Sérgio Moro mostrou Dilma dizendo a Lula que enviaria, por intermédio de “Bessias”, o termo de posse da Casa Civil “para usar em caso de necessidade”. Dias depois, a nomeação de Lula foi suspensa pelo ministro Gilmar Mendes.

Em 2016, Jorge Messias não era o protagonista formal da crise, mas virou símbolo dela. Em 2026, ele era o centro da aposta presidencial e, novamente, o desfecho foi um revés. Em dois contextos distintos, com naturezas institucionais diferentes, o nome de Messias acabou ligado a operações de poder que fracassaram diante de outro centro decisório do Estado.

A derrota de 2026 não foi só de Messias; foi de Lula

A derrota no Senado expôs um limite político do governo Lula num terreno em que presidentes costumam exercer enorme influência. Indicar um ministro do STF é um ato de poder de longo alcance, capaz de projetar influência institucional por décadas. Quando essa escolha é rejeitada, o desgaste não recai apenas sobre o nome indicado, mas sobre a autoridade política do presidente que o escolheu.

O governo havia montado um esforço de articulação incomum para aprovar Messias, mas enfrentou resistência importante no Senado, inclusive do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que preferia outro nome para a vaga. Isso faz da derrota algo mais grave do que uma simples falha de articulação, mostrando-se uma recusa explícita do Senado a uma escolha do Planalto.

Por isso, a derrota é considera histórica. O presidente perdeu, de forma pública e numericamente clara, uma disputa que envolvia sua autoridade, sua articulação e sua capacidade de construir maioria em torno de um nome pessoalmente próximo.

O fantasma de “Bessias”

O episódio do “Bessias” pertence a outro Brasil político, o da Lava Jato, da crise terminal do governo Dilma e da tentativa de Lula de voltar ao centro do poder como ministro da Casa Civil. Mas o que aconteceu ali marcou profundamente a memória pública do nome Jorge Messias. Na gravação divulgada por Moro, Dilma diz: “eu tô mandando o ‘BESSIAS’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse”. A expressão atravessou o noticiário, entrou no vocabulário político e colou em Messias uma identidade simbólica que ele nunca conseguiu apagar totalmente.

Poucos dias depois, Gilmar Mendes suspendeu a posse de Lula. Na decisão, citou a conversa e concluiu que a nomeação tinha como efeito prático deslocar o caso da primeira instância para o STF, o que, segundo ele, criava obstáculo às investigações. O episódio se tornou um dos marcos da implosão do governo Dilma e da radicalização política daquele período.

Em 2016, Jorge Messias não foi barrado pelo sistema; ele apareceu como peça de uma engrenagem barrada. Exatos dez anos depois, a situação se inverteu: ele próprio foi o nome vetado. Mas, em ambos os casos, Lula tentou produzir um movimento de afirmação institucional e encontrou contenção fora do Planalto, primeiro no Judiciário e, agora, no Senado.

Diferenças e semelhanças

Claro que os dois episódios não são iguais. Em 2016, o caso estava inserido numa atmosfera de excepcionalidade, judicialização intensa e colapso político do governo Dilma. Em 2026, o processo seguiu o rito constitucional regular: indicação, sabatina e votação no Senado. A semelhança está no efeito político. Nos dois casos, um movimento articulado para fortalecer Lula terminou convertendo-se em desgaste.

Também por isso a nova derrota reativou o simbolismo do passado. Jorge Messias é, ao mesmo tempo, um jurista de longa trajetória na Advocacia-Geral da União e um nome que foi capturado pela memória política brasileira. Em 2016, virou o “Bessias” da gravação. Em 2026, virou o indicado derrotado. Para qualquer governo, já seria um problema. Para Lula, que conhece como poucos o valor dos símbolos na política, isso pesa ainda mais.

O paralelo mais forte entre 2016 e 2026 é estrutural. Nos dois momentos, Lula apostou em uma movimentação institucional pensada para reorganizar poder. Em 2016, a ida à Casa Civil teria recolocado Lula dentro do núcleo decisório do governo Dilma em meio à crise. Em 2026, a ida de Jorge Messias ao STF ampliaria a presença de um aliado histórico de Lula em uma Corte decisiva para a política brasileira. Em ambos os casos, a operação falhou antes de se completar.

O personagem Jorge Messias funciona, assim, quase como uma linha de continuidade entre dois reveses que dizem muito sobre a relação de Lula com os centros de poder do Estado brasileiro.

A mensagem do Messias de Lula

No papel, Jorge Messias é um quadro jurídico do Estado. Na política, porém, ele se transformou em algo maior: um nome carregado de memória, associado a dois capítulos em que Lula tentou transformar força política em ocupação institucional e encontrou resistência. O episódio do “Bessias” foi um trauma do ciclo Dilma-Lula. A rejeição no Senado, agora, é um trauma do terceiro mandato.

Jorge Messias acabou se tornando, duas vezes, o rosto de limites impostos a Lula pelo próprio sistema institucional que ele tentava manejar. Em 2016, o bloqueio veio do STF. Em 2026, veio do Senado. Em ambos, o efeito foi o mesmo: um movimento pensado para afirmar poder terminou deixando exposta a vulnerabilidade política do Planalto.

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