Inclusão na prática: quando o trabalho abre caminhos para autonomia e dignidade

De acordo com a Lei de Cotas, as proporções para empregar pessoas com deficiência variam de acordo com a quantidade de funcionários de cada empresa
Vandineide Rodrigues e Victor Dantas no trabalho
Vandineide Rodrigues e Victor Dantas no trabalho. Foto: Arquivo pessoal

Histórias como as de Vandineide, há mais de 30 anos no serviço público, e Victor, que encontrou autonomia e pertencimento no trabalho, mostram na prática como a inclusão transforma vidas. Apesar de desafios, o apoio, as oportunidades e a tecnologia ampliam a independência e a dignidade de pessoas com deficiência. No Ceará, políticas públicas e a Lei de Cotas impulsionam essa inclusão, mas o avanço depende de ambientes acolhedores e mais oportunidades reais no mercado de trabalho.

Vandineide Rodrigues construiu, ao longo de décadas, uma trajetória marcada por coragem, persistência e autonomia. Deficiente visual, atua como telefonista no Palácio do Governo desde 1995, quando iniciou sua jornada profissional por meio de um convênio entre a Casa Militar e o Instituto dos Cegos. Em maio, ela completa 31 anos de dedicação ao trabalho — uma história que traduz, na prática, o verdadeiro significado de inclusão.

Ao longo desse percurso, os desafios não foram poucos. A locomoção ainda figura entre as principais dificuldades enfrentadas no dia a dia. Ainda assim, a cearense encontrou apoio nos colegas de trabalho e, sobretudo, na própria determinação. Para ela, o mais importante nunca foi a ausência de obstáculos, mas a disposição para superá-los.

“Existem muitos desafios, mas o que importa é a determinação, é você querer mesmo ser independente”, afirma. Sua fala resume uma filosofia de vida pautada na busca por autonomia e dignidade. Trabalhar, para Vandineide, vai além de cumprir uma rotina: é conquistar espaço, construir identidade e ver seus esforços reconhecidos.

Vandineide Rodrigues no trabalho
“Existem muitos desafios, mas o que importa é a determinação, é você querer mesmo ser independente”, afirma Vandineide Rodrigues

Ela também destaca os avanços da tecnologia, que vêm ampliando as possibilidades para pessoas com deficiência visual e tornando o ambiente profissional mais acessível. Ainda assim, ressalta que a inclusão efetiva depende de oportunidades e colaboração.

“Desempenho bem a minha função e faço tudo com muito amor e respeito. Nunca tive dificuldade para ser aceita no meio de pessoas ditas normais. Todas tentam me ajudar da melhor maneira possível e são sensíveis às minhas necessidades”, diz.

Transformando vidas

A história de Victor Dantas se assemelha à de Vandineide ao revelar, na prática, como a inclusão transforma vidas e fortalece a autonomia. Aos 37 anos, o jovem, diagnosticado com Síndrome de Down, trabalha desde 2019 em uma unidade da Drogasil, onde construiu sua própria trajetória de independência e pertencimento.

Em sua rotina, ele desempenha diversas funções com responsabilidade e dedicação. “Começo às 13h e termino às 17h. Recepciono os clientes, entrego a cestinha, direciono para as prateleiras caso seja preciso, guardo e organizo os produtos em seus devidos lugares”, detalha. O trabalho, para Victor, vai muito além das tarefas diárias — representa crescimento pessoal e realização.

Assim como Vandineide, ele destaca a importância do ambiente acolhedor para o seu desenvolvimento profissional. Sentir-se respeitado e apoiado faz toda a diferença em sua jornada. “Hoje me sinto importante, tenho minha poupança e tenho dinheiro para atividades extras, como Muay Thai, ir ao shopping, passear… Os outros funcionários me acolhem muito bem, me orientando, me ouvindo, me sinto realmente acolhido”, relata. .

A experiência de Victor reforça que a inclusão efetiva não se limita ao acesso ao trabalho, mas se consolida no reconhecimento, no respeito e nas oportunidades de crescimento. Seu desejo de continuar trabalhando “até quando puder” revela não apenas compromisso, mas também o valor que o trabalho tem em sua vida — como instrumento de autonomia, dignidade e construção de sonhos.

Inserção no mercado de trabalho

O Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT) tem ampliado iniciativas voltadas à inclusão de pessoas com deficiência no mercado. Entre 2023 e março de 2026, mais de 3.700 trabalhadores foram inseridos por meio da intermediação do IDT/Sine.

Além da realização de feirões de vagas afirmativas, o órgão oferece cursos de qualificação exclusivos para a população PCD. Em parceria com o Ministério Público, já foram formadas 14 turmas em Fortaleza e na Região Metropolitana, com capacitações nas áreas administrativa, logística e rotinas de operação de caixa, dentro do projeto de Qualificação Social e Profissional PCD. No interior do estado, destaca-se a conclusão, em março deste ano, de uma turma em Sobral, composta por alunos com deficiência auditiva.

Victor Dantas no trabalho
O trabalho, para Victor, vai muito além das tarefas diárias — representa crescimento pessoal e realização

A instituição também disponibiliza atendimento especializado por meio do setor de Inclusão e Diversidade, localizado na unidade do Centro de Fortaleza. A gerência atua, entre outras frentes, na sensibilização de empresas para a abertura de vagas, acompanhando todo o processo de intermediação.

Como forma de reconhecimento, o Governo do Ceará, por meio da Secretaria do Trabalho, promove a premiação “Empresa Completa, Empresa que Inclui”, que chega à 15ª edição em 2026, homenageando empresas que mais se destacam na contratação de profissionais com deficiência no estado.

O que diz a legislação

De acordo com a Lei de Cotas, nº 8213/1991, as proporções para empregar pessoas com deficiência variam de acordo com a quantidade de funcionários de cada empresa. Por exemplo, de 100 a 200 empregados, a reserva legal é de 2%. Já as empresas com mais de 1.001 empregados devem reservar 5% das vagas para esse grupo. A fiscalização é de responsabilidade do Ministério do Trabalho e Emprego.

Banner horizontal do projeto “Direito de Acesso”. À esquerda, fundo azul com o título “Direito de Acesso”, sendo “Direito de” em azul claro e “Acesso” em branco, acompanhado de um traço curvo abaixo da palavra. À direita, em fundo claro, aparecem as identificações institucionais: “Realização: O Veredito”; “Patrocínio: Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (ALECE)”; e “Apoio institucional: OAB Ceará”, com suas respectivas logomarcas.

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