Os deputados federais e estaduais eleitos pelo Ceará receberam, em média, mais recursos de seus partidos do que os candidatos mais bem posicionados que ficaram fora das vagas. A diferença permanece mesmo quando a comparação considera grupos do mesmo tamanho dentro de cada legenda.
O levantamento de O Veredito cruzou os resultados do primeiro turno das Eleições 2026 com as receitas declaradas à Justiça Eleitoral. Para cada partido que conquistou cadeiras, foi comparado o número de eleitos com igual quantidade de candidatos não eleitos, seguindo a ordem de votação.
Se uma legenda elegeu quatro deputados, foram considerados os quatro não eleitos mais votados. Se conquistou apenas uma cadeira, a comparação foi feita com o primeiro candidato que ficou fora.
No caso dos deputados federais, foram analisados 22 eleitos e 21 não eleitos. A diferença ocorreu porque o PP elegeu dois candidatos, mas apresentou apenas um não eleito disponível para a comparação. Na disputa estadual, os dois grupos ficaram com 46 candidaturas cada.
Eleitos tiveram mais recursos e maior eficiência
Entre os deputados federais eleitos, a média de recursos recebidos dos partidos foi de R$ 2,20 milhões. No grupo equivalente de não eleitos, a média ficou em R$ 1,35 milhão.
A mediana (valor que ocupa a posição central e reduz o efeito de campanhas excepcionalmente caras) também apresentou diferença: R$ 2,36 milhões entre os eleitos e R$ 1,45 milhão entre os não eleitos.

Na disputa pela Assembleia Legislativa, os 46 eleitos receberam, em média, R$ 351,2 mil dos partidos. Entre os 46 não eleitos utilizados na comparação, a média foi de R$ 189,3 mil.
A mediana ficou em R$ 262,3 mil entre os vencedores e R$ 179,2 mil entre os não eleitos.

Os dados indicam que os vencedores não apenas receberam mais dinheiro, como transformaram os recursos em votos com maior eficiência.
Na eleição federal, os repasses partidários equivaleram a R$ 13,78 por voto entre os eleitos, contra R$ 36,79 no grupo não eleito. Na disputa estadual, foram R$ 4,83 por voto entre os eleitos e R$ 7,73 entre os derrotados.
Quem entrou no levantamento para deputado federal
Foram utilizados os nomes de urna dos seguintes candidatos:
- MDB — eleitos: Yury do Paredão e Nenen Coelho. Não eleitos: Jacqueline Gouveia e Bispa Vanessa Lima.
- PL — eleitos: André Fernandes, Matheus Noronha, Dr. Jaziel e Carmelo Neto. Não eleitos: Priscila Costa, Ppcell, Pedro Matos e Julierme Sena.
- PP — eleitos: Danilo Forte e AJ Albuquerque. Não eleita: Fábia Brilhante.
- PRD — eleita: Giordanna Mano. Não eleito: Chiquinho dos Carneiros.
- PSB — eleitos: Tainah Marinho, Robério Monteiro, Idilvan e Dr. Acilon. Não eleitos: Roger Aguiar, Denis Bezerra, Pai do Garel e Daniele Pimentel.
- PSD — eleitos: Domingos Neto, Fernanda Pessoa e Célio Studart. Não eleitos: Luiz Gastão, Tiririca e Luana Régia.
- PT — eleitos: Fernando Santana, Raimundo Martins e Luisa Cela. Não eleitos: Larissa Gaspar, José Airton e Adelita Monteiro.
- Republicanos — eleita: Erika Amorim. Não eleito: Ronaldo Martins.
- Solidariedade — eleito: Emanuel Acrizio. Não eleito: Vanderlan Alves.
- União Brasil — eleito: Moses Rodrigues. Não eleito: Mauro Filho.
Quem entrou no levantamento para deputado estadual
Na disputa pela Assembleia Legislativa, foram considerados:
- MDB — eleito: Davi de Raimundão. Não eleito: Danniel Oliveira.
- PL — eleitos: Tancredo dos Santos, Bella Carmelo, Abreu Junior, Dra. Silvana, Dra. Mayra Pinheiro e Pastor Frota. Não eleitos: David Vasconcelos, Sargento Borges, Betão, Carlos Kleber, Dr. Marcio Roney e Alcy Pinheiro.
- PP — eleito: Zezinho Albuquerque. Não eleito: Thiago Campelo.
- PSB — eleitos: Romeu Aldigueri, Osmar Baquit, Sérgio Aguiar, Guilherme Landim, Jeová Mota, Fabiola Carneiro, Marcos Sobreira, Elizeu Monteiro, Paloma Nunes, Manu Pimenta, Marta Gonçalves, Dr. Geronimo e Lia Gomes. Não eleitos: Salmito, Leonardo Pinheiro, Dr. Lucilvio Girão, Guilherme Bismarck, Antonio Granja, Tin Gomes, Paulinha Braga, Raiane da Bá, Luiz Sergio, Leonelzinho Alencar, Eulogio Neto, Nega do Henrique Jorge e Denise Brito.
- PSD — eleitos: Domingos Filho, Firmo Camurça e Simão Pedro. Não eleitos: Lorena Pinheiro, Tony Brito e Vinicius Duarte.
- PSDB — eleitos: Felipe Vasques, Davi Benevides e Emilia Pessoa. Não eleitos: Queiroz Filho, Cláudio Pinho e Felipe Mota.
- PSOL — eleitos: Gabriel Biologia e Leo Suricate. Não eleitos: Professora Zuleide e Ailton Lopes.
- PT — eleitos: Liziany Medeiros, Lais Nunes, Jade Romero, Catanho, Jô Farias, De Assis Diniz, Franzé Carneiro, Missias Dias, Gadyel, Ilo Neto e Moisés Braz. Não eleitos: Bruno Pedrosa, Zé Ailton, Guilherme Sampaio, Nizo Costa, Eliana Estrela, Acrísio Sena, Julinho, Professora Adriana Almeida, Professora Maya Eliz, Professora Teresinha e Luana Valim.
- PV — eleito: João Jaime. Não eleito: Walter Cavalcante.
- Republicanos — eleitos: David Durand e Gardel Rolim. Não eleitos: Márcio Martins e Fernando Hugo.
- Solidariedade — eleita: Georgia do Marcelão. Não eleita: Martinha Brandão.
- União Brasil — eleitos: Moses Filho e James Bel. Não eleitos: Valdir Moto Peças e Abdias Filho.
O que aconteceu na linha de corte
O levantamento também comparou, em cada legenda, o último candidato eleito com o primeiro que ficou fora das vagas. Essa análise aproxima candidaturas que estavam na fronteira entre conquistar ou não um mandato.
Na disputa federal, o último eleito recebeu mais recursos partidários que o primeiro não eleito em sete dos dez partidos analisados. Em duas legendas, o candidato que ficou fora recebeu mais dinheiro. Em uma, os valores foram iguais.
Entre os deputados estaduais, o último eleito recebeu mais em sete dos 12 partidos. Em quatro, o primeiro não eleito foi mais financiado. Em uma legenda, os valores foram iguais.
O resultado indica que o financiamento partidário favoreceu os vencedores na maioria das comparações, mas não determinou sozinho quem conquistou a cadeira.
Exceções mostram os limites do dinheiro
Mesmo com grupos equivalentes, foram encontradas legendas nas quais os não eleitos receberam, em média, mais recursos do que os vencedores.
Na eleição federal, isso ocorreu no PT, no Solidariedade e no União Brasil. No PT, os três eleitos receberam, em média, R$ 1,05 milhão, enquanto os três não eleitos mais votados receberam R$ 1,13 milhão.
No Solidariedade, Emanuel Acrizio recebeu R$ 1,4 milhão, enquanto Vanderlan Alves recebeu R$ 1,29 milhão. No União Brasil, Moses Rodrigues recebeu R$ 1,7 milhão, abaixo dos R$ 2,13 milhões destinados a Mauro Filho.
Na eleição estadual, as médias dos não eleitos superaram as dos vencedores no PP e no PSD. No MDB e no Republicanos, os valores ficaram muito próximos.
Os casos mostram que as direções partidárias podem considerar determinada candidatura competitiva, investir nela e, ainda assim, não obter o resultado esperado.
Quem decide quais candidatos recebem mais?
A maior parte dos valores identificados no levantamento veio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, conhecido como Fundo Eleitoral ou FEFC.
O fundo é composto por dinheiro público previsto no Orçamento da União. Em 2026, o montante nacional chegou a R$ 4,96 bilhões. O Tribunal Superior Eleitoral recebe os recursos do Tesouro Nacional e calcula quanto cabe a cada partido.
A divisão entre as legendas segue quatro critérios:
- 2% são distribuídos igualmente entre os partidos registrados no TSE;
- 35% consideram os votos obtidos pelas legendas na última eleição para a Câmara;
- 48% levam em conta o tamanho das bancadas na Câmara dos Deputados;
- 15% são divididos conforme a representação no Senado.
Partidos com maiores bancadas e mais votos na eleição anterior, portanto, recebem parcelas maiores. O TSE disponibiliza o cálculo de 2026, com a decomposição dos valores destinados a cada legenda.
Decisão fica com a direção nacional
Depois que o dinheiro chega ao partido, não existe uma divisão obrigatoriamente igual entre todos os candidatos.
A Comissão Executiva Nacional da legenda define os critérios de distribuição. A decisão precisa ser aprovada pela maioria absoluta dos integrantes da direção executiva nacional, registrada em ata e divulgada publicamente.
Somente depois da apresentação dos critérios ao TSE o Fundo Eleitoral é liberado para o diretório nacional.
Os partidos podem adotar critérios como competitividade eleitoral, tentativa de reeleição, desempenho em pesquisas, importância estratégica do estado, base municipal, projeção nacional e acordos com os diretórios estaduais.
Na prática, isso dá às cúpulas partidárias grande influência sobre quais candidaturas terão estrutura profissional, publicidade, equipes, viagens e impulsionamento nas redes sociais.
Os diretórios estaduais podem indicar prioridades e administrar parte dos repasses, mas a extensão dessa autonomia depende das regras aprovadas nacionalmente por cada legenda.
Justiça Eleitoral não escolhe os beneficiados
O TSE fiscaliza a origem, a destinação e a prestação de contas, mas não escolhe quais candidatos devem receber mais dinheiro.
A definição dos critérios é considerada uma decisão interna dos partidos. A Justiça Eleitoral não costuma analisar o mérito político da distribuição, desde que as regras tenham sido divulgadas e sejam respeitadas as obrigações legais.
No levantamento, os recursos foram contabilizados pelo partido responsável pela transferência. Nos casos de federação, a situação eleitoral decorre da lista federativa, mas a identificação financeira continua vinculada à legenda que efetivamente enviou o dinheiro.
Existem limites para a escolha partidária
A autonomia das direções não é absoluta. Os partidos precisam respeitar as cotas destinadas a mulheres, pessoas negras e indígenas.
As candidaturas femininas devem receber pelo menos 30% dos recursos, observada eventual proporção superior. Para pessoas negras, o percentual também não pode ser inferior a 30%. As candidaturas indígenas devem receber recursos proporcionais à participação registrada pelo partido.
Os percentuais são calculados nacionalmente. O dinheiro reservado para esses grupos não pode ser desviado para candidaturas que não integram as respectivas cotas, salvo em despesas coletivas que também beneficiem as campanhas protegidas.
O descumprimento pode levar à devolução de valores ao Tesouro Nacional e produzir consequências no julgamento das contas.
Dinheiro importa, mas não vence sozinho
O recorte fortalece a conclusão de que os partidos direcionaram mais recursos, em média, para candidaturas que terminaram eleitas.
Isso não significa, contudo, que o dinheiro tenha causado a vitória. A distribuição tende a favorecer candidatos que já eram considerados competitivos. Mandato anterior, base política, apoio de prefeitos, presença nas redes sociais, reconhecimento do nome e estrutura construída antes da campanha também ajudam a explicar simultaneamente o recebimento de recursos e o desempenho eleitoral.
O levantamento mostra uma associação entre financiamento e sucesso nas urnas, mas também registra campanhas bem financiadas que não conseguiram conquistar vagas.
Dados ainda são preliminares
Os valores analisados estavam no arquivo de receitas gerado pelo TSE em 4 de outubro, às 4h05. As prestações finais começaram a ser entregues em 5 de outubro e poderão ser apresentadas até 3 de novembro para as candidaturas encerradas no primeiro turno.
Os números podem mudar com novos relatórios financeiros, correções e retificações.