Recuperação judicial cresce entre micro e pequenas empresas do País

Índice entre microempresas avançou 133% desde 2023; juros elevados, crédito caro e falta de caixa ajudam a explicar o aumento
Homens sobre mesa diante de documento sendo assinado por um deles enquanto o outro aponta para o papel
Foto: Magnific

A recuperação judicial cresceu 133% entre microempresas desde 2023. Juros altos e crédito caro pressionam principalmente os pequenos negócios. Grandes companhias têm buscado alternativas como a recuperação extrajudicial.

A recuperação judicial tem ganhado espaço entre negócios de menor porte no Brasil. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, o índice de microempresas em recuperação cresceu 133%, enquanto o de pequenas empresas avançou 69%.

Os dados são do Monitor RGF BizDoc, elaborado com informações da Receita Federal e divulgados pelo jornal Valor. O levantamento passou a incluir microempresas e teve toda a série histórica ajustada, o que também elevou o volume total de companhias contabilizadas.

No caso das microempresas, o índice passou de 0,03 para 0,07 negócio em recuperação judicial a cada mil empresas. Entre as pequenas, subiu de 0,52 para 0,87. Nas médias empresas, o avanço foi de 31%, de 1,01 para 1,32 a cada mil.

O movimento foi inverso entre as companhias maiores. O índice das grandes empresas recuou 13%, de 16,6 para 14,4 a cada mil. Entre as muito grandes, a queda foi de 16%, de 20,8 para 17,4.

Grandes empresas buscam alternativa extrajudicial

Empresas grandes e muito grandes continuam com índices proporcionalmente mais elevados, mas parte delas passou a recorrer à recuperação extrajudicial.

Somente no primeiro semestre de 2026, Raízen, GPA e Oncoclínicas escolheram esse caminho para negociar passivos de R$ 65 bilhões, R$ 4,6 bilhões e R$ 5,1 bilhões, respectivamente. A alternativa é considerada mais rápida, barata e menos estigmatizada do que o processo judicial.

Enquanto grandes companhias migram para outros instrumentos de reestruturação, micro, pequenas e médias empresas começam a incorporar a recuperação judicial às estratégias de sobrevivência.

Juros altos pesam mais sobre pequenos negócios

Para especialistas, a mudança está relacionada ao prolongado ciclo de juros elevados. Micro e pequenas empresas dependem principalmente do crédito bancário, geralmente mais caro, e têm menor acesso ao mercado de capitais e menos reservas para enfrentar longos períodos de restrição financeira.

Contudo, o modelo de recuperação judicial foi concebido para dívidas maiores. Em processos envolvendo pequenos negócios, despesas com administrador judicial, assembleias, perícias e advocacia especializada podem consumir parte significativa dos recursos que se busca preservar.

A Lei nº 11.101 prevê um plano especial para micro e pequenas empresas, mas o mecanismo é pouco utilizado por ser considerado rígido. Para Paiva, falta ao sistema um procedimento mais simples e barato, semelhante a um juizado especial voltado a pequenos devedores e produtores rurais.

Estoque atingiu pico em maio

O número de empresas em recuperação judicial chegou a 6.513 em maio, maior patamar da série histórica. Em junho, o estoque recuou em 172 companhias, na primeira queda relevante registrada pelo levantamento.

Damasceno pondera, entretanto, que o movimento de apenas um mês ainda não permite afirmar que existe uma tendência de desaceleração.

O tempo médio de permanência das empresas que não seguem para a falência é de 4,2 anos. Do estoque atual, 1.537 companhias entraram em recuperação em 2025, 1.189 em 2024 e 840 em 2023.

Entre as empresas que já estavam em reestruturação no início de 2023, 65% continuam no processo. Outras 26% retomaram as operações sem supervisão, enquanto 3,2% faliram ou tiveram o CNPJ baixado.

Essa duração prolongada aumenta a incerteza para as empresas e, principalmente, para os credores, que não sabem quando ou se receberão os valores devidos.

Agronegócio concentra novas entradas

O comércio possui o maior estoque de recuperações judiciais, com 1.649 empresas, após 54 novas entradas no segundo trimestre. Em seguida aparece a indústria, com 1.455 companhias.

O agronegócio permanece como principal foco das novas reestruturações. O setor soma 1.263 empresas, com 111 entradas apenas no segundo trimestre de 2026.

Na outra ponta, o segmento de energia teve somente um novo pedido no período. O setor também registrou a saída da Light do processo de recuperação.

Especialistas avaliam que o agronegócio continuará pressionado nos próximos meses. Os possíveis efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, porém, devem levar mais tempo para aparecer nos pedidos de recuperação.

O varejo também é apontado como um setor vulnerável, especialmente entre empresas endividadas e que já tentaram renegociar seus passivos. Segundo os especialistas, os efeitos das mudanças econômicas costumam levar de dois a três trimestres para chegar aos processos de recuperação, podendo aparecer com maior intensidade no segundo semestre de 2026 e em 2027.

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