Pix, big techs e crime organizado no Brasil: pressão dos EUA pode influenciar eleições

Sistema de pagamentos instantâneos brasileiro voltou ao radar americano
Trump no Salão Oval da Casa Branca
Eventual ataque americano ao Pix tenderia a reforçar o discurso de soberania nacional, que já ganhou força desde a escalada da tensão comercial com Donald Trump. Foto: Molly Riley/White House

Os EUA podem voltar a pressionar o Brasil sobre o Pix, as big techs e outros temas sensíveis da relação bilateral. No governo Lula, a avaliação é que esse embate pode ter impacto direto na eleição de 2026, especialmente no discurso de soberania. Além do Pix, temas como crime organizado, antissemitismo e minerais críticos também entraram no radar da disputa política.

Os Estados Unidos devem voltar a pressionar o Brasil em torno do Pix e do tratamento dado às big techs, em um movimento que pode extrapolar a agenda econômica e atingir diretamente o debate eleitoral brasileiro. O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro voltou ao radar americano dentro da investigação aberta com base na Section 301, instrumento usado por Washington para apurar supostas práticas comerciais desleais. A apuração foi anunciada em julho de 2025 e incluiu, entre os alvos, políticas brasileiras sobre comércio digital e serviços de pagamento eletrônico. As informações são do portal Jota.

O Pix já havia aparecido formalmente na resposta brasileira ao governo dos Estados Unidos em 2025. Na ocasião, o Itamaraty sustentou que o sistema, administrado pelo Banco Central, não discrimina empresas estrangeiras e observou que outros países, inclusive os próprios EUA com o FedNow, também adotam estruturas públicas de pagamentos instantâneos. Ainda assim, associações empresariais americanas e entidades ligadas ao setor de tecnologia e pagamentos continuaram apontando o Pix como problema, argumentando que o Banco Central acumularia, ao mesmo tempo, funções de regulador e operador da infraestrutura. 

A pressão sobre as plataformas digitais aparece no mesmo pacote. O USTR informou, ao abrir a investigação, que vai examinar atos e políticas brasileiras relacionados ao comércio digital, enquanto entidades empresariais americanas vêm alertando que a regulação brasileira sobre plataformas poderia ampliar as preocupações dos EUA. Na prática, isso aproxima duas agendas sensíveis para Brasília: a defesa do Pix como política pública de soberania financeira e a tentativa de impor regras mais duras às gigantes de tecnologia. 

Esse entrelaçamento ajuda a explicar por que o tema ganhou dimensão política. Dentro do governo Lula, há receio de que tanto o embate em torno do Pix quanto a pressão das big techs possam ser explorados no ambiente eleitoral. O cálculo político é que um eventual ataque americano ao Pix — sistema amplamente popular e usado em larga escala no país — tenderia a reforçar o discurso de soberania nacional, que já ganhou força desde a escalada da tensão comercial com Donald Trump.

A percepção pública sobre os Estados Unidos hoje torna esse cenário ainda mais delicado. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em março mostrou que 48% dos brasileiros têm visão desfavorável dos EUA, contra 38% com opinião favorável. O mesmo levantamento apontou que um eventual apoio de Trump a Flávio Bolsonaro aumentaria mais a chance de voto em Lula do que no próprio senador: 32% disseram que isso elevaria a probabilidade de votar no atual presidente, enquanto 28% disseram o mesmo em relação a Flávio. 

A disputa, porém, não se limita ao Pix e às plataformas. Outros três temas externos com potencial de impacto eleitoral já entraram no radar político: crime organizado, antissemitismo e minerais críticos. No caso da segurança, a pressão de aliados de Bolsonaro para que os EUA classifiquem PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas ganhou repercussão internacional após reportagem do New York Times, reproduzida no Brasil por vários veículos. Flávio Bolsonaro, depois, afirmou não apoiar “interferência estrangeira” para resolver o problema, mas defendeu “cooperação internacional” sobre o tema.

No governo federal, a preocupação é que esse tipo de classificação abra espaço para sanções amplas e até para pressões externas mais duras sobre o sistema financeiro brasileiro. Ao mesmo tempo, a direita avalia que a pauta da segurança segue sendo um dos pontos mais vulneráveis do governo Lula e, por isso, pretende mantê-la no centro da disputa. 

No caso dos minerais críticos, a sensibilidade aumentou depois que o governo de Goiás firmou um memorando de entendimento com os EUA, movimento visto no Planalto como gesto político de viés eleitoral. O tema vem sendo usado por nomes da direita como forma de sinalizar alinhamento com Washington e oferecer o Brasil como alternativa à dependência americana em relação à China.

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