A grande maioria dos brasileiros que têm ou frequentam alguma religião rejeita o uso de igrejas e comunidades religiosas como espaços de campanha eleitoral. Pesquisa nacional do Instituto de Estudos da Religião (ISER), realizada em parceria com a Quaest, mostra que 90% são contra permitir que candidatos façam campanha dentro de igrejas ou comunidades religiosas.
A resistência vai além da presença física de candidatos nos templos. 83% são contrários a que lideranças religiosas indiquem em quem os fiéis devem votar e 82% rejeitam que essas lideranças discutam temas relacionados à política dentro da igreja ou de outros espaços religiosos.
O resultado ganha relevância por aparecer de maneira semelhante entre diferentes grupos religiosos. Católicos, pentecostais, protestantes, evangélicos sem igreja, espíritas e integrantes de religiões afro-brasileiras apresentam ampla rejeição à utilização eleitoral desses espaços.
Entre pentecostais, por exemplo, 79% são contra a indicação de candidatos pelas lideranças e 87% rejeitam a realização de campanha dentro das igrejas. Entre protestantes, os percentuais chegam a 81% e 91%, respectivamente.

Rejeição não impediu recomendações em 2022
Os dados sobre a eleição presidencial de 2022, no entanto, revelam outra face da relação entre fé e política.
Quando perguntados se a liderança da comunidade religiosa que frequentavam havia recomendado voto em algum candidato no segundo turno, 78% disseram que não houve indicação. Outros 11% afirmaram ter recebido recomendação para votar em Jair Bolsonaro e 5%, em Luiz Inácio Lula da Silva.
O dado não permite concluir que os eleitores tenham seguido a recomendação. A pesquisa mede a existência de uma orientação por parte da liderança religiosa, e não se essa orientação efetivamente mudou ou determinou o voto.
Ainda assim, a diferença entre os grupos chama atenção. A recomendação de voto em Bolsonaro relatada pelos entrevistados foi mais frequente entre segmentos evangélicos.
Entre os pentecostais, 23% afirmaram que a liderança religiosa recomendou voto em Bolsonaro, enquanto 5% disseram ter recebido indicação para Lula. Entre os protestantes, os percentuais foram de 20% para Bolsonaro e 3% para Lula. Já entre os evangélicos sem igreja que frequentavam alguma comunidade religiosa, 18% relataram recomendação para Bolsonaro e 4% para Lula.
O próprio relatório destaca que, em comparação com outras religiões, a recomendação de voto em Bolsonaro foi mais elevada entre os grupos evangélicos.
Entre pentecostais, rejeição e orientação convivem
É justamente entre os pentecostais que aparece um dos contrastes mais expressivos do levantamento.
De um lado, quase oito em cada dez são contra que líderes religiosos digam em quem votar. De outro, quase um quarto dos entrevistados desse grupo afirmou que sua liderança recomendou voto em Bolsonaro em 2022.
Entre os protestantes ocorre fenômeno semelhante: 81% rejeitam a indicação eleitoral das lideranças, mas 20% relatam ter recebido recomendação para votar no então presidente na disputa de 2022.
Os números não significam que as mesmas pessoas que rejeitam a prática tenham necessariamente recebido a recomendação. Eles mostram, porém, que há uma distância entre a posição predominante dos fiéis sobre como as igrejas devem se comportar durante as eleições e a experiência relatada por uma parcela deles no último pleito presidencial.
Igrejas estão entre as instituições de maior confiança
Outro resultado da pesquisa ajuda a dimensionar a importância desse debate. Igrejas estão entre as instituições nas quais os entrevistados depositam maior confiança.
A Igreja Católica aparece com 37% dizendo confiar muito e 37% que confiam pouco. No caso das igrejas evangélicas, 26% confiam muito e 42% confiam pouco. Apenas 22% dizem não confiar na Igreja Católica e 27% nas igrejas evangélicas.
O quadro é bastante diferente em relação às instituições diretamente ligadas à política. Apenas 3% afirmam confiar muito nos partidos políticos, enquanto 64% dizem não confiar neles.
Essa diferença não demonstra, por si só, que lideranças religiosas determinem votos. Mas ajuda a explicar por que a atuação política dessas lideranças é relevante: elas se encontram em instituições que desfrutam de níveis de confiança bem superiores aos registrados pelos partidos.
Pesquisa ouviu 15 mil brasileiros
A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil ouviu 15 mil brasileiros com 16 anos ou mais, entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. As entrevistas foram presenciais, com questionários estruturados. A margem de erro geral estimada é de um ponto percentual, com nível de confiança de 95%.
O relatório ressalva que as margens de erro aumentam quando os resultados são analisados por grupos religiosos específicos, especialmente nos segmentos de menor tamanho.
IGREJA É LUGAR DE CAMPANHA ELEITORAL? Para 90% dos religiosos ouvidos em uma nova pesquisa nacional, a resposta é não.
Levantamento do ISER em parceria com a Quaest mostra uma forte resistência dos próprios fiéis à utilização eleitoral das igrejas e comunidades religiosas.
📊 90% são contra permitir que candidatos façam campanha dentro de igrejas;
📊 83% rejeitam que líderes religiosos indiquem em quem votar;
📊 82% são contra a discussão de temas políticos pelas lideranças dentro desses espaços.
Mas a pesquisa encontrou um contraste quando perguntou sobre a eleição presidencial de 2022.
Embora 78% afirmem que suas lideranças não recomendaram nenhum candidato, 11% dizem ter recebido orientação para votar em Jair Bolsonaro e 5% para votar em Lula.
A recomendação por Bolsonaro foi mais frequente entre evangélicos: 23% dos pentecostais e 20% dos protestantes afirmam que suas lideranças recomendaram voto nele.
O dado não significa que os fiéis tenham obedecido à orientação — a pesquisa não mede isso. Mas revela uma diferença importante entre o que a maioria dos religiosos considera adequado para suas igrejas e aquilo que uma parcela deles afirma ter vivenciado nas eleições de 2022.
O levantamento ouviu 15 mil brasileiros em todo o país.
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