Aplicativo criado no Ceará democratiza acesso à natureza para pessoas com deficiência

Criado no interior do Ceará por professores de uma instituição pública, o aplicativo transforma trilhas ecológicas em espaços acessíveis, multissensoriais e inclusivos
Placa de Identificação destacando a espécie Faveira. Além do QR Code, na placa há símbolos de LIBRAS e inscrições gravadas em Braille
Placa de Identificação destacando a espécie Faveira. Além do QR Code, na placa há símbolos de LIBRAS e inscrições gravadas em Braille (Foto: Breno Árleth)

O aplicativo Ecomapss une tecnologia assistiva e preservação ambiental para tornar trilhas acessíveis a pessoas com deficiência. Com QR Codes, NFC, áudio, Libras, GPS, braille e adaptações físicas, a ferramenta amplia autonomia e segurança em áreas verdes. Criado no IFCE Crato, o projeto já alcança cidades do Ceará e Pernambuco e tem participação direta de pessoas com deficiência na validação das soluções.

A natureza deve ser um espaço de pertencimento e contemplação para todos. Este é um dos objetivos do aplicativo Ecomapss, desenvolvido no campus Crato do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Um projeto que permite a experiência de estar na natureza ao unir preservação ecológica e ferramentas assistivas tecnológicas, abrindo caminhos para que pessoas com deficiência explorem áreas verdes com autonomia, segurança e igualdade.

O Ecomapss nasceu em 2017 a partir de um projeto do professor Gauberto Barros, um dos desenvolvedores, que enxergou a necessidade de catalogar informações sobre as diferentes espécies de árvores e plantas, dentro do campus do IFCE Crato, para apresentar ao público. A unidade está localizada na Área de Proteção Ambiental (APA) do Araripe, local de grande diversidade ecológica. O projeto rapidamente evoluiu e a ferramenta passou a ser desenvolvida conjuntamente com os professores João Alberto Abreu, Brisa Cabral e Izabela Lima.

Mapa dos locais onde o Ecomapss está associado a espaços físicos
Mapa dos locais onde o Ecomapss está associado a espaços físicos (Criação: Prof. João Abreu)

Tecnologia e acessibilidade nas trilhas

A primeira trilha à qual o aplicativo esteve associado fora do IFCE foi o Parque Estadual Sítio Fundão. O professor João Abreu conta que logo a ideia da acessibilidade surgiu, passou a figurar como objetivo chave dos estudos e implementações da ferramenta. Em 2018, na mesma trilha, foram inseridas estruturas de acessibilidade na área, conectando ao aplicativo Ecomapss, que mapeia a fauna, a flora e atrativos de importância histórica e cultural.

Nas trilhas ecológicas, a equipe do projeto e parceiros voluntários instalam placas de identificação com o nome das espécies. Em um trabalho cuidadoso e artesanal, o professor João Abreu confecciona as placas utilizando a Pedra Cariri, enquanto os textos em linguagem Braille são gravados, também por ele, em chapas de alumínio, garantindo maior durabilidade contra a ação do tempo.

Prof. João Abreu no laboratório de informática do IFCE Crato, segurando placa que será inserida em uma trilha inclusiva
Prof. João Abreu no laboratório de informática do IFCE Crato, segurando placa que será inserida em uma trilha inclusiva (Foto: Breno Árleth)

Para acessar as informações de forma digital, o usuário não precisa de conhecimentos complexos. Basta utilizar a câmera do celular para ler o QR code presente nas placas. Além disso, em alguns locais, o aplicativo opera via NFC, a partir de chips instalados nas placas. Assim como em um pagamento por aproximação, ao encostar o celular na placa, as informações são compartilhadas para o aparelho. Ao acessar o conteúdo, o aplicativo disponibiliza narração em áudio e vídeos em LIBRAS sobre as curiosidades do ambiente.

A ferramenta ainda conta com o sistema de geolocalização, ou seja, o uso do GPS do celular para identificar a posição exata do visitante no mapa, guiando-o com segurança mesmo em locais onde não há sinal de internet. Além da tecnologia digital, as trilhas que recebem o projeto completo são fisicamente adaptadas para usuários de cadeira de rodas e possuem linhas-guia com guizos, que orientam o percurso de pessoas cegas de forma sonora e tátil.

Aplicativo Ecomapss mostra a localização de usuário na Trilha Mirante do Caldas
Aplicativo Ecomapss mostra a localização de usuário na Trilha Mirante do Caldas (Foto: Hélio Filho)

O protagonismo de quem vivencia a acessibilidade

Pode-se dizer que uma das chaves para o sucesso do Ecomapss é o fato de ele não ser projetado apenas para pessoas com deficiência, mas sim com elas. Germano Silva, que é cego, foi o primeiro a testar uma trilha acessível do projeto e hoje atua como consultor fundamental de acessibilidade da iniciativa. Ele que também chegou a gravar o braille nas placas quando ainda eram feitas de latinhas de refrigerante, visita as trilhas, caminha pelos trajetos e valida pessoalmente cada adaptação realizada.

“Nada melhor do que a própria pessoa com deficiência para entender as limitações e as dificuldades do grupo”, relata Germano, destacando a importância de projetos de maneira geral, como obras públicas, convidarem pessoas com deficiência para acompanhar a construção de infraestruturas acessíveis, garantindo a eliminação de barreiras e assertividade quanto aos objetivos de inclusão.

Quanto à sua contribuição também voluntária no aplicativo, ele celebra: “Eu me sinto muito importante, me sinto integrante como membro do grupo que participa ativamente, que colabora tanto no campo das ideias quanto no campo físico, participando e intervindo de forma prática”.

Da esquerda para a direita: Glauber, João, Germano, Brisa e Jefferson, que também ajuda em atividades do projeto
Da esquerda para a direita: Glauber, João, Germano, Brisa e Jefferson, que também ajuda em atividades do projeto (Foto: Geo Brasil)

Expansão

Nascido no Crato, o Ecomapss avançou os limites municipais e as divisas estaduais, levando inclusão para mais pessoas. Atualmente, a ferramenta abrange 14 cidades, distribuídas entre os estados do Ceará e Pernambuco. Locais de grande visibilidade turística e preservação ambiental, como o Parque do Cocó (Fortaleza), o Parque Nacional de Jericoacoara, o Mirante do Caldas (Barbalha) e as Áreas de Proteção Ambiental de Camocim, já contam com o serviço.

Para o professor João Abreu, principal desenvolvedor de software, o sentimento que alimenta a manutenção do projeto é um: “só amor mesmo”, destaca. Ele completa apontando que trabalham para que o projeto contribua para que os usuários usufruam dos ambientes de forma real. “Não adianta colocar acessibilidade sem dar acesso. Pensando nisso, vemos a alegria das pessoas que têm necessidade desses recursos. Ver no rosto essa alegria, é algo que comove e motiva”, reflete o professor. E conclui, ressaltando que todos na equipe entendem que “cada implantação do Ecomapss é um caminho aberto para a inclusão”.

Banner horizontal do projeto “Direito de Acesso”. À esquerda, fundo azul com o título “Direito de Acesso”, sendo “Direito de” em azul claro e “Acesso” em branco, acompanhado de um traço curvo abaixo da palavra. À direita, em fundo claro, aparecem as identificações institucionais: “Realização: O Veredito”; “Patrocínio: Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (ALECE)”; e “Apoio institucional: OAB Ceará”, com suas respectivas logomarcas.

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