A natureza deve ser um espaço de pertencimento e contemplação para todos. Este é um dos objetivos do aplicativo Ecomapss, desenvolvido no campus Crato do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Um projeto que permite a experiência de estar na natureza ao unir preservação ecológica e ferramentas assistivas tecnológicas, abrindo caminhos para que pessoas com deficiência explorem áreas verdes com autonomia, segurança e igualdade.
O Ecomapss nasceu em 2017 a partir de um projeto do professor Gauberto Barros, um dos desenvolvedores, que enxergou a necessidade de catalogar informações sobre as diferentes espécies de árvores e plantas, dentro do campus do IFCE Crato, para apresentar ao público. A unidade está localizada na Área de Proteção Ambiental (APA) do Araripe, local de grande diversidade ecológica. O projeto rapidamente evoluiu e a ferramenta passou a ser desenvolvida conjuntamente com os professores João Alberto Abreu, Brisa Cabral e Izabela Lima.

Tecnologia e acessibilidade nas trilhas
A primeira trilha à qual o aplicativo esteve associado fora do IFCE foi o Parque Estadual Sítio Fundão. O professor João Abreu conta que logo a ideia da acessibilidade surgiu, passou a figurar como objetivo chave dos estudos e implementações da ferramenta. Em 2018, na mesma trilha, foram inseridas estruturas de acessibilidade na área, conectando ao aplicativo Ecomapss, que mapeia a fauna, a flora e atrativos de importância histórica e cultural.
Nas trilhas ecológicas, a equipe do projeto e parceiros voluntários instalam placas de identificação com o nome das espécies. Em um trabalho cuidadoso e artesanal, o professor João Abreu confecciona as placas utilizando a Pedra Cariri, enquanto os textos em linguagem Braille são gravados, também por ele, em chapas de alumínio, garantindo maior durabilidade contra a ação do tempo.

Para acessar as informações de forma digital, o usuário não precisa de conhecimentos complexos. Basta utilizar a câmera do celular para ler o QR code presente nas placas. Além disso, em alguns locais, o aplicativo opera via NFC, a partir de chips instalados nas placas. Assim como em um pagamento por aproximação, ao encostar o celular na placa, as informações são compartilhadas para o aparelho. Ao acessar o conteúdo, o aplicativo disponibiliza narração em áudio e vídeos em LIBRAS sobre as curiosidades do ambiente.
A ferramenta ainda conta com o sistema de geolocalização, ou seja, o uso do GPS do celular para identificar a posição exata do visitante no mapa, guiando-o com segurança mesmo em locais onde não há sinal de internet. Além da tecnologia digital, as trilhas que recebem o projeto completo são fisicamente adaptadas para usuários de cadeira de rodas e possuem linhas-guia com guizos, que orientam o percurso de pessoas cegas de forma sonora e tátil.

O protagonismo de quem vivencia a acessibilidade
Pode-se dizer que uma das chaves para o sucesso do Ecomapss é o fato de ele não ser projetado apenas para pessoas com deficiência, mas sim com elas. Germano Silva, que é cego, foi o primeiro a testar uma trilha acessível do projeto e hoje atua como consultor fundamental de acessibilidade da iniciativa. Ele que também chegou a gravar o braille nas placas quando ainda eram feitas de latinhas de refrigerante, visita as trilhas, caminha pelos trajetos e valida pessoalmente cada adaptação realizada.
“Nada melhor do que a própria pessoa com deficiência para entender as limitações e as dificuldades do grupo”, relata Germano, destacando a importância de projetos de maneira geral, como obras públicas, convidarem pessoas com deficiência para acompanhar a construção de infraestruturas acessíveis, garantindo a eliminação de barreiras e assertividade quanto aos objetivos de inclusão.
Quanto à sua contribuição também voluntária no aplicativo, ele celebra: “Eu me sinto muito importante, me sinto integrante como membro do grupo que participa ativamente, que colabora tanto no campo das ideias quanto no campo físico, participando e intervindo de forma prática”.

Expansão
Nascido no Crato, o Ecomapss avançou os limites municipais e as divisas estaduais, levando inclusão para mais pessoas. Atualmente, a ferramenta abrange 14 cidades, distribuídas entre os estados do Ceará e Pernambuco. Locais de grande visibilidade turística e preservação ambiental, como o Parque do Cocó (Fortaleza), o Parque Nacional de Jericoacoara, o Mirante do Caldas (Barbalha) e as Áreas de Proteção Ambiental de Camocim, já contam com o serviço.
Para o professor João Abreu, principal desenvolvedor de software, o sentimento que alimenta a manutenção do projeto é um: “só amor mesmo”, destaca. Ele completa apontando que trabalham para que o projeto contribua para que os usuários usufruam dos ambientes de forma real. “Não adianta colocar acessibilidade sem dar acesso. Pensando nisso, vemos a alegria das pessoas que têm necessidade desses recursos. Ver no rosto essa alegria, é algo que comove e motiva”, reflete o professor. E conclui, ressaltando que todos na equipe entendem que “cada implantação do Ecomapss é um caminho aberto para a inclusão”.
