O batente quebrado de uma escadaria. O elevador em manutenção de um prédio com muitos andares. A dificuldade para ler ou escrever em uma sala com iluminação insuficiente para o tamanho do ambiente. Tudo isso e muito mais não dito são situações que integram a acessibilidade arquitetônica ou, possivelmente, a ausência dela. Geralmente, a primeira a ser percebida, sentida, entre as muitas outras formas de acessibilidade, a acessibilidade em prédios é a materialização física do direito de ir e vir.
Para uma pessoa com deficiência, os exemplos listados acima são mais do que a ausência de manutenção ou planejamento, podem significar o atraso e, talvez, a eliminação de uma entrevista de emprego, um rendimento baixo em uma seleção pública, o térmico de um dia que sequer começou. Mas é possível fazer diferente, tratar esse tema como um pilar fundamental para a garantia da autonomia e da cidadania, caminhando para além da remoção de obstáculos. E fazem! No plural mesmo.
No sul do Ceará, sob as bênçãos do Padre Cícero e a benevolência da Chapada do Araripe, a Universidade Federal do Cariri (UFCA), criada em 05 de junho de 2013, mostra que é mais do que viável garantir acessibilidade, é básico. Com cinco campi localizados em Barbalha, Brejo Santo, Crato, Icó e Juazeiro do Norte, por meio da Diretoria de Infraestrutura (Dinfra) e Secretaria de Acessibilidade, a universidade segue abrindo oportunidades, trilhando caminhos pavimentados na equidade. Além de garantir o cumprimento de normas técnicas de edificação que tornam seus ambientes acessíveis à comunidade acadêmica, a instituição expandiu a inclusão até a pedagogia, tornando-a elemento central de sua missão de ensino, pesquisa, inovação e cultura.
“A acessibilidade se desdobra em inúmeros aspectos do dia a dia e da estrutura da Universidade. Como gosto de dizer, nossa missão é transformar vidas, todas as vidas, por meio da educação. E, para isso, precisamos ter uma consideração toda especial por questões como acessibilidade e inclusão”, explica o reitor da UFCA, Silvério de Paiva Freitas Júnior, que descreve em sua fala a acessibilidade enquanto um pressuposto da atuação da instituição.

Trabalho dedicado, permanente e especializado.
É na Secretaria de Acessibilidade que, sem dúvida, o tema ganha força como valor entre os muitos outros, que integram a razão de existência da instituição. Responsável por coordenar ações que vão desde a oferta de serviços especializados, como tutoriais para gravação de vídeos acessíveis e painéis de dados sobre o perfil dos discentes com deficiência da instituição até questões centrais do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). É esse núcleo que eleva a matéria à categoria de política institucional transversal na universidade, buscando assegurar o acesso ao conhecimento pautado pela equidade, atendendo às necessidades de estudantes e servidores com deficiência.
Todo início de semestre, a pasta contacta estudantes com deficiência para oferecer apoio. Após reunir informações, montar estudos individuais dos perfis de cada estudante e identificar demandas, existindo concordância, são realizados os encaminhamentos, como a criação de materiais adaptados, direcionamento de intérpretes de Libras, revisores de braille, suporte pedagógico ao público com Transtorno do Espectro Autista, acompanhamento psicológico e/ou recursos de Tecnologia Assistiva. A Secretaria também aponta atuações necessárias aos outros setores da instituição. “Já articulamos com a Dinfra [Diretoria de Infraestrutura] para ajustar a iluminação para uma estudante com TEA”, exemplifica Francileuda Linhares, secretária de Acessibilidade, há 10 anos na instituição e que vivencia as ações da área, também, enquanto servidora com deficiência.

Ela reforça a ideia da interdisciplinaridade, intersetorialidade e interconexão como pilares, que regem a estratégia de acessibilidade na UFCA. “ Não é possível cuidar dela [acessibilidade] apenas dentro de um núcleo, pois criaríamos uma ‘mini universidade’ aqui dentro. O conceito correto é que a acessibilidade seja um tema transversal, presente em todos os espaços para que não se encontrem barreiras”, aponta.

Acessibilidade Física nos Prédios da UFCA
A Diretoria de Infraestrutura (Dinfra) é o setor responsável por gerenciar as obras e a manutenção dos espaços físicos nos diversos campi da instituição. O desafio da acessibilidade física passa pelo monitoramento constante das condições arquitetônicas para eliminar barreiras que possam obstruir a participação efetiva da comunidade acadêmica nos espaços de conhecimento da UFCA.
A gerente da Divisão de Acessibilidade Física, Igliane Teles, destaca que a universidade está no caminho certo ao investir recurso, tempo e pesquisa para levar a inclusão a todos os espaços, evitando tratar o público com deficiência como algo à parte. Segundo ela, hoje a universidade possui 80% da sua infraestrutura acessível. “ Toda obra nova na UFCA já nasce com projeto de acessibilidade incluso. Nas obras antigas, herdadas da UFC, viemos adaptando quase todos os campi. Temos piso tátil e mapas táteis, o que é um diferencial, pois poucas universidades possuem. Eu mesma tive que aprender Braille para desenvolver o mapa tátil do campus de Brejo Santo”, acrescenta.

Ensino, Pesquisa e Inovação
A UFCA destaca-se ainda pela oferta do curso de graduação em Letras/Libras e pela manutenção de uma agenda ativa de tradutores e intérpretes de Libras para apoiar as atividades acadêmicas. A universidade também expande sua atuação para a pós-graduação, com cursos voltados à Educação Bilíngue de Surdos e Educação Musical na modalidade EaD.
Para garantir a permanência estudantil, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) oferece auxílios específicos, como o Auxílio Tecnologia Assistiva e o Auxílio Inclusão Digital, fundamentais para que o estudante tenha os recursos necessários para acompanhar o percurso formativo.

Na pesquisa e inovação, a coordenação da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação (PRPI) fomenta projetos que dialogam com as demandas de inclusão. Isso se alinha ao objetivo da Política Estadual da Pessoa com Deficiência do Estado do Ceará de estimular estudos e pesquisas sobre as deficiências para promover a habilitação e reabilitação social.
Francileuda, em tom de conclusão, acredita que a UFCA tem se destacado, porque compreendeu que “a acessibilidade não é só para a pessoa com deficiência; é para o idoso, para a gestante, para todos em algum momento da vida. É uma questão de conscientização cultural sobre o uso de rampas, mobiliários e vagas reservadas”, conclui a secretária.