Autismo no dia a dia: a força da família na construção da autonomia

Lorenzo com os pais
“Todo o trabalho terapêutico só alcança resultados consistentes quando chega ao ambiente real onde a criança vive, que é a família”, diz a psicóloga e neuropsicóloga Sarah Meneses. Foto: Arquivo pessoal

Juliana diz que o autismo a ensinou a valorizar o simples e a respeitar o tempo de cada conquista do filho Lorenzo. A família tem papel central no desenvolvimento, na autonomia e na inclusão da criança autista. Amor, rede de apoio, orientação profissional e luta por direitos são essenciais nessa jornada.

“O autismo me fez perceber a beleza do ordinário.” A frase de Juliana Torres, advogada de 39 anos e mãe de Lorenzo, de 8, resume uma transformação profunda — não apenas na forma de enxergar o filho, mas de compreender a própria vida.

Antes mesmo de qualquer rótulo, Lorenzo já era, para ela, singular. “Ele não é definido por um diagnóstico, ele é definido pela luz que tem”, afirma. Essa luz se revela nos detalhes: em cada tentativa de palavra, em cada avanço na comunicação, em cada pequeno gesto que, para muitas famílias, poderia passar despercebido, mas que ali ganha dimensão de conquista extraordinária.

A rotina, no entanto, está longe de ser simples. Diferente das chamadas famílias típicas, o dia a dia é marcado por uma agenda intensa de terapias — psicopedagogia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicomotricidade, ABA — que se somam à escola regular. É uma jornada que exige organização, energia e, sobretudo, entrega. Ainda assim, Juliana faz questão de preservar o essencial: “também escolhemos viver o simples, momentos em que não fazemos nada, apenas deixamos que ele seja criança”.

Entre todos os desafios, há um que se impõe de forma silenciosa e constante: o tempo. Ou, mais precisamente, a ausência de controle sobre ele. “O esperar”, como define, é o que mais exige. No universo do autismo, não há prazos ou garantias — apenas o exercício contínuo da paciência, da fé e do amor diante de processos que não seguem relógios.

As dificuldades não se limitam ao ambiente doméstico. Juliana relata episódios de preconceito e exclusão, como matrícula negada e cancelamento de plano de saúde. Situações que, para além da dor, exigiram posicionamento. “Exigir direitos não é pedir favor”, diz. Para ela, a luta também é coletiva: ampliar o entendimento sobre o autismo, combater julgamentos e abrir caminhos para que crianças como Lorenzo ocupem todos os espaços.

Nesse ponto, a experiência da família encontra respaldo no olhar clínico da psicóloga e neuropsicóloga Sarah Meneses. Segundo ela, o papel da família no desenvolvimento de uma criança autista é central e insubstituível. “Todo o trabalho terapêutico só alcança resultados consistentes quando chega ao ambiente real onde a criança vive, que é a família”, explica. É nesse espaço que a criança aprende habilidades fundamentais, como se comunicar, lidar com frustrações e se organizar no mundo.

A especialista destaca que as horas em consultório são limitadas, enquanto o cotidiano familiar é contínuo. Por isso, quando os familiares compreendem o funcionamento da criança e passam a aplicar estratégias no dia a dia, deixam de ser apenas cuidadores e se tornam agentes ativos no desenvolvimento.

“Capacitar a família não é complementar ao tratamento, é parte essencial dele”, afirma.

Essa participação ativa também é determinante para a inclusão social. De acordo com Sarah, ela começa dentro de casa, em práticas simples: incentivar autonomia, permitir que a criança tente e erre, estimular convivência e ensinar a lidar com mudanças. Em contrapartida, ambientes superprotetores ou desorganizados podem dificultar esse processo.

Lorenzo brincando
Foto: Arquivo pessoal

Diagnóstico

O diagnóstico, como explica a psicóloga, costuma provocar uma reestruturação profunda na dinâmica familiar. Mudam-se rotinas, prioridades e até papéis. “Não é apenas a criança que recebe um diagnóstico, a família inteira é impactada”, diz. Muitas vezes, os pais passam por um processo semelhante ao luto, atravessando fases como negação, culpa e aceitação — que nem sempre acontece de forma linear.

Nesse cenário, o cuidado com a saúde emocional dos responsáveis se torna indispensável. “Pais emocionalmente regulados conseguem regular melhor seus filhos”, pontua.

As orientações parentais dentro das terapias ajudam a elaborar sentimentos e oferecem ferramentas práticas para o cotidiano.

Autonomia

Outro ponto essencial é o estímulo à autonomia. Sarah explica que ela precisa ser ensinada e incentivada diariamente, com pequenas atitudes: permitir que a criança tente resolver situações sozinha, envolvê-la em tarefas simples e valorizar o processo, não apenas o resultado.

“Quando a família favorece essas experiências, a criança desenvolve mais confiança e independência”, reforça.

O vínculo afetivo também ocupa lugar central nesse processo. Mais do que intervenções constantes, a especialista destaca a importância de momentos genuínos de conexão.

“Nem todo momento precisa ser terapêutico. Muitos precisam ser apenas afetivos”, diz. Estar presente, brincar, validar emoções e entrar no universo da criança são atitudes que fortalecem essa relação.

A atenção, no entanto, deve se estender a toda a família. Irmãos de crianças autistas também precisam de escuta e cuidado para que não se sintam invisíveis ou sobrecarregados. E é justamente nesse contexto que a rede de apoio ganha ainda mais relevância. “Ninguém sustenta essa rotina sozinho por muito tempo sem se esgotar”, afirma Sarah, destacando o papel de familiares, amigos e até de outras famílias que vivenciam o autismo.

Na prática, Juliana reconhece esse privilégio. A presença da família ajuda a sustentar a rotina exigente e reforça uma certeza importante: ninguém precisa caminhar sozinho. Ainda assim, ela sabe que essa não é a realidade de todos — e que, para muitas famílias, o acesso ao diagnóstico, às terapias e à informação ainda é um desafio diário.

Apesar de tudo, o que prevalece é o olhar para o que floresce. Lorenzo, apaixonado por água, encontrou no surf uma forma de expressão e alegria. Vive intensamente cada experiência, acumulando vivências que vão muito além dos consultórios. “Ele é movimento”, resume a mãe.
No fim, é ele quem conduz as maiores lições. Ensina a valorizar o que é pequeno, a respeitar o tempo, a celebrar o caminho — não apenas os resultados. Ensina que o amor, mais do que força, é direção.

E é essa certeza que sustenta o futuro. Entre a fé, a ciência e a persistência cotidiana, Juliana segue acreditando. Não em limites, mas em possibilidades. Porque, como ela mesma diz, o autismo não é o fim — é apenas uma forma diferente de existir. E, como toda forma de existência, merece ser vista, compreendida e, acima de tudo, respeitada.

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