Fim da ‘taxa das blusinhas’ reacende debate sobre preços, concorrência e impacto no setor produtivo

Com a MP que zerou o imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50, consumidores podem pagar menos, mas medida amplia pressão sobre indústria e varejo nacionais
Em vigor desde agosto de 2024, a taxa de 20% foi aplicada em compras internacionais online de até US$ 50
Em vigor desde agosto de 2024, a taxa de 20% foi aplicada em compras internacionais online de até US$ 50 (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

O fim da chamada “taxa das blusinhas” pode baratear compras internacionais de pequeno valor. Ao mesmo tempo, a medida aumenta a pressão sobre o comércio e a indústria brasileiros. O debate envolve consumo, arrecadação, concorrência e proteção do setor produtivo.

A decisão do governo federal de zerar o imposto de importação nas compras internacionais de até US$ 50 recolocou no centro do debate um dilema conhecido da economia brasileira: como equilibrar alívio no preço para o consumidor e proteção à competitividade do setor produtivo nacional.

A mudança foi formalizada por medida provisória publicada em edição extra do Diário Oficial da União em 12 de maio, autorizando a redução a zero do imposto de importação para remessas internacionais de pequeno valor. A nova regra já está em vigor, mas a MP ainda precisa ser analisada pelo Congresso em até 120 dias para não perder a validade.

Pela regra anterior do Programa Remessa Conforme, compras de até US$ 50 feitas em plataformas certificadas pagavam 20% de Imposto de Importação, além do ICMS, que continua sendo cobrado e varia conforme o estado. Com a mudança, o imposto federal foi zerado, mas o tributo estadual permanece.

O que muda para o consumidor

No curto prazo, o efeito mais visível tende a ser a redução do custo final de produtos importados de pequeno valor, especialmente itens comprados em plataformas internacionais de comércio eletrônico.

O governo justificou a medida afirmando que ela beneficia principalmente o consumo popular e foi viabilizada após a regularização do comércio eletrônico internacional e a redução de práticas irregulares no setor.

Esse lado da decisão é o que aparece primeiro para quem compra: sem o imposto federal de 20%, parte dos produtos tende a chegar mais barata ao consumidor brasileiro. Mas esse é apenas um dos lados da equação.

Efeito vai além da arrecadação

Para o advogado Hamilton Sobreira, presidente da Comissão de Direito Tributário (CDTrib) da OAB Ceará, a discussão não deve ser vista apenas sob o ângulo da cobrança ou da renúncia fiscal, mas também como instrumento de regulação econômica.

“Na verdade, não é uma taxa, é uma sequência de impostos que deve voltar a incidir, que antes incidia, depois deixou de incidir e agora vai incidir novamente. Na verdade, mais do que uma relação tributária, a gente vê um efeito extrafiscal do tributo. E qual é esse efeito extra fiscal? Regular o mercado, às vezes desestimulando, às vezes incentivando alguns setores da economia”, explica.

Ele alerta, contudo, para os riscos da medida. “O que se percebe é que, quando se tira a tributação de produtos que vêm do exterior, no primeiro momento pode ser interessante para a população, para as pessoas que compram, que fazem a aquisição desses produtos, porque vai chegar mais barato aqui no Brasil. O outro ponto é porque isso também influencia nos produtos brasileiros, que tem naturalmente uma tributação, uma carga tributária alta. Essa carga tributária não será reduzida e os empresários brasileiros muito provavelmente irão concorrer com empresas de fora que não têm a mesma carga tributária. Então, o governo ou o setor de economia terá que avaliar muito bem o resultado dessa tributação ou da não tributação dos produtos vindos do exterior”.

Ou seja, o tributo não serve apenas para arrecadar, mas também para influenciar comportamento econômico, proteger cadeias produtivas e afetar a forma como empresas nacionais competem com fornecedores estrangeiros.

Pressão sobre indústria e varejo nacionais

A principal preocupação do setor produtivo é a possibilidade de aumento da concorrência assimétrica.
Isso ocorre porque o produto importado de pequeno valor passa a entrar no país com custo tributário menor, enquanto a empresa brasileira continua submetida a uma carga tributária interna elevada, além de custos de produção, emprego formal, logística e crédito.

Na prática, a diferença não está só no preço final. Está no fato de que o concorrente estrangeiro opera sob uma estrutura de custos diferente e, agora, com menos imposto federal sobre a mercadoria vendida ao consumidor brasileiro.

Esse é o ponto que preocupa especialmente segmentos como:

  • varejo de moda;
  • acessórios;
  • eletrônicos de baixo valor;
  • utilidades domésticas;
  • e pequenos fabricantes que concorrem com mercadorias importadas vendidas em plataformas digitais.

Governo abre mão de receita bilionária

A medida também tem impacto direto nas contas públicas.

Segundo estimativa do Ministério da Fazenda, o fim da cobrança deve representar perda de arrecadação de R$ 9,72 bilhões entre 2026 e 2028. A projeção é de custo de R$ 1,94 bilhão em 2026, R$ 3,54 bilhões em 2027 e R$ 4,24 bilhões em 2028.

Ainda segundo os dados divulgados, a arrecadação obtida com esse imposto entre agosto de 2024 e abril de 2026 foi próxima da perda agora projetada, o que mostra que a cobrança já havia se tornado uma fonte relevante de receita federal.

O papel extrafiscal do tributo

A tributação maior das remessas internacionais pode desestimular a importação de produtos de baixo valor e criar algum grau de proteção para o mercado interno. Já a desoneração pode favorecer o consumo imediato, mas ampliar a pressão sobre setores locais.

Esse tipo de decisão, portanto, não afeta apenas quem compra. Afeta também:

  • o varejo nacional;
  • a indústria de transformação;
  • a geração de empregos;
  • e a competitividade de empresas brasileiras.

Medida ainda é provisória

A nova regra foi adotada por medida provisória, o que significa que ela já produz efeitos, mas ainda depende de aprovação do Congresso Nacional para se tornar permanente.

Isso mantém um grau de incerteza para empresas, importadores, plataformas e consumidores, já que o modelo pode ser mantido, alterado ou até perder eficácia, a depender da tramitação parlamentar.

O desafio do equilíbrio

O debate sobre o fim da chamada “taxa das blusinhas” revela uma disputa entre dois objetivos:

  • baratear o consumo, especialmente para famílias de menor renda;
  • e evitar enfraquecimento do setor produtivo nacional, que já convive com carga tributária alta e competição intensa.

A decisão do governo favorece, no curto prazo, quem compra. Mas também amplia a necessidade de discutir como o Brasil pretende tratar a concorrência entre produtos importados e produção nacional.

Sem redução estrutural da carga sobre empresas brasileiras, a tendência é que o benefício dado ao consumidor venha acompanhado de maior pressão sobre o comércio e a indústria locais.

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