O ministro Dias Toffoli recuou. Depois de ter sido sorteado relator do mandado de segurança que cobra a instalação da CPI do Banco Master na Câmara, declarou-se suspeito por “motivo de foro íntimo” e devolveu o caso à Presidência do Supremo, que o redistribuiu ao ministro Cristiano Zanin. Horas depois, também se declarou suspeito para participar do julgamento, na Segunda Turma, sobre a manutenção da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro. 
O gesto escancara o tamanho da crise. Quando muitos entendem que a continuidade de Toffoli como ministro já é insustentável, declarar-se suspeito parece ser uma tentativa de diminuir a pressão. Mas pode ter sido tarde demais.
Em fevereiro, Toffoli já havia deixado a relatoria do caso Master depois de reunião convocada por Edson Fachin, na esteira de relatório da Polícia Federal com menções ao ministro em mensagens extraídas do celular de Vorcaro. Na ocasião, o STF divulgou nota de apoio pessoal a Toffoli, afirmou não haver suspeição ou impedimento e validou os atos por ele praticados, embora tenha aceitado a redistribuição do processo “a pedido” do próprio ministro.
Era uma solução ambígua naquele momento. Agora ficou pior. O que aconteceu nesta quarta-feira (11) expôs a inconsistência da posição adotada pelo Supremo. Se não havia impedimento nem suspeição relevantes, por que Toffoli precisou sair da CPI do Master e do julgamento sobre Vorcaro tão logo a pressão pública se reacendeu? Se havia, por que o tribunal sustentou até aqui a aparência de normalidade?
Tarde demais para parecer prudência
A questão não é apenas jurídica. É política e institucional. Toffoli tentou, primeiro, preservar a tese de que estava formalmente desimpedido. Ao se afastar da CPI, fez questão de ressaltar que teriam sido “definitivamente afastadas” quaisquer hipóteses de suspeição ou impedimento em relação à Operação Compliance Zero. Mas, ao mesmo tempo, alegou foro íntimo para abrir mão da relatoria da CPI e, em seguida, da participação no julgamento da prisão de Vorcaro.
Na prática, o que o ministro admite (sem dizer) é que sua presença no caso se tornou insustentável. E isso não vale apenas para dois episódios específicos. Vale para o conjunto.
Quem já não consegue permanecer nem na relatoria de uma ação derivada do escândalo, nem no julgamento colegiado de uma prisão ligada ao mesmo caso, dificilmente conserva autoridade para continuar orbitando a crise como se nada tivesse acontecido.
STF tentou blindar o ministro e expôs a si mesmo
O Supremo errou duas vezes.
Primeiro, ao manter em fevereiro uma nota corporativa que pretendia salvar a imagem de Toffoli sem enfrentar de forma clara o problema político criado por sua permanência no caso. Segundo, ao permitir que o ministro continuasse formalmente disponível para processos ligados ao Master, como se a crise tivesse sido superada por mera redistribuição burocrática.
Não foi.
O que se viu nesta quarta-feira foi a prova disso. Bastou que um novo processo relacionado ao Banco Master caísse em suas mãos para que a Corte voltasse à berlinda. Bastou a proximidade do julgamento sobre a prisão de Vorcaro para que o desconforto se tornasse novamente incontornável.
O recuo, portanto, confirma que a confiança já estava rompida.
STF no centro da crise
O caso Master deixou há muito de ser apenas um escândalo financeiro. Ele passou a testar a capacidade do Estado, e especialmente do STF, de lidar com suspeitas que tangenciam o próprio núcleo do poder.
Quando um ministro precisa se retirar não por reconhecimento transparente de impedimento, mas por conveniência tardia diante da pressão, a instituição indica que age sempre um passo atrás da crise.
Isso é especialmente grave em ano eleitoral, quando qualquer sinal de proteção corporativa se multiplica no debate público.
A CPI do Master toca mercado financeiro, Banco Central, Congresso, governo do Distrito Federal e o próprio Supremo. Toffoli não podia ser o relator desse pedido. Não podia votar sobre Vorcaro. E, ao fim do dia, acabou reconhecendo isso pela via oblíqua do foro íntimo.
Recuo não apaga a questão principal
É claro que sair agora é melhor do que insistir.
Mas já não basta.
Porque o problema deixou de ser apenas o que Toffoli faz em um ou outro processo. O problema é o que sua permanência na Corte, sob essas condições, passa a simbolizar.
No plano estritamente formal, ele continua ministro do STF. No plano institucional, contudo, a situação é outra. Um magistrado que já não reúne condições para continuar em casos diretamente ligados ao maior escândalo a tocar o tribunal nos últimos anos dificilmente preserva, intacta, a autoridade moral exigida para permanecer como fator de estabilidade da própria Corte.
O recuo de hoje pode diminuir a pressão imediata. Mas talvez tenha chegado tarde demais para evitar a conclusão de que Toffoli já não consegue proteger nem a própria imagem, nem a do Supremo.
E, quando um ministro passa a representar esse tipo de passivo institucional, a pergunta deixa de ser sobre um caso específico e passa a ser sobre sua permanência.