O custo das dívidas e a dificuldade de obter financiamento devem manter elevada a procura por reestruturação empresarial no Brasil em 2027 e 2028, na avaliação do advogado Joel Luís Thomaz Bastos. Especialista em insolvência e reestruturação, ele considera que os efeitos da pandemia ainda pesam sobre parte das empresas e dificultam a recuperação dos negócios.
A projeção foi apresentada em entrevista ao AM Cast, podcast do escritório André Menescal Advogados, conduzida pelos advogados e sócios André Menescal e Lívia Paiva. Durante a conversa, o convidado afirmou esperar mais dois anos de forte demanda na área.
“O que eu vejo é que eu acho que a área de insolvência e reestruturação tem ainda uns dois anos de picos de trabalho. Os próximos dois anos, eu estou falando em 2027 e 28”, disse.
Financiamento mais difícil pressiona as empresas
Com mais de 30 anos de carreira, Thomaz Bastos relaciona essa perspectiva à combinação de juros elevados, crédito restrito e dificuldades financeiras que se prolongaram após a crise sanitária.
Ao explicar sua avaliação, o advogado mencionou juros de 14% e relatou situações em que o financiamento está muito limitado ou indisponível para os clientes.
Empréstimos mais caros aumentam o custo de obter recursos e podem elevar o peso de dívidas com taxas variáveis. Ao mesmo tempo, condições mais exigentes para a concessão de crédito dificultam o acesso ao dinheiro necessário para pagar despesas ou substituir uma dívida.
Esse cenário amplia a necessidade de reorganizar as finanças e a operação. A reestruturação pode envolver renegociação de dívidas, extensão dos prazos de pagamento, redução de despesas e mudanças no funcionamento da empresa.
Para o especialista, parte dos negócios ainda carrega perdas da pandemia. “Existe ainda um efeito retardado que eu acho que o pessoal não enxerga mais, mas dentro das reuniões você vê que ainda tem gente que não passou a régua na pandemia”, afirmou.
Varejo enfrenta mudanças no consumo
No comércio varejista, Thomaz Bastos identifica uma pressão adicional: a dificuldade de acompanhar o avanço das plataformas digitais e as mudanças nos hábitos dos consumidores.
Segundo sua avaliação, problemas na operação podem permanecer sem diagnóstico quando a atenção do empresário fica concentrada na disponibilidade imediata de dinheiro.
O advogado também criticou a pouca atenção ao planejamento econômico-financeiro. Para ele, olhar apenas para o caixa dificulta perceber problemas que exigem mudanças mais amplas no negócio.
“O ruim do empresário brasileiro é que ele é muito mais orientado pelo caixa do que pelo planejamento econômico-financeiro”, declarou.
Demanda deve alcançar diferentes formas de reorganização
Na perspectiva do entrevistado, a procura por soluções deve abranger recuperações extrajudiciais, recuperações judiciais e medidas cautelares preparatórias, utilizadas antes do pedido principal.
Thomaz Bastos também apontou a possibilidade de desdobramentos na área de falências ao fim desse período. Sua avaliação indica que as dificuldades das empresas podem continuar exigindo atenção mesmo após os anos de maior demanda por reestruturação.
A entrevista completa está disponível no canal do AM Cast no YouTube.