Eleições 2026: como diferentes cenários econômicos podem afetar os investimentos

Propostas sobre gastos públicos, tributação, dívida e investimentos podem repercutir sobre juros, inflação, câmbio e Bolsa
Imagem gerada por Ia mostra urna eletrônica, Congresso Nacional e planilhas com gráficos
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As eleições de 2026 podem influenciar juros, inflação, câmbio e preços dos ativos conforme as propostas econômicas dos candidatos. Especialista alerta que decisões patrimoniais não devem depender da expectativa de vitória de um único projeto político. Diversificação, visão de longo prazo e controle da exposição a riscos são apontados como estratégias para atravessar períodos de maior volatilidade.

Com a aproximação das eleições de outubro, a disputa pela Presidência da República começa a influenciar também as expectativas do mercado financeiro. Para quem investe ou busca preservar patrimônio, porém, a discussão vai além de qual candidato aparece à frente nas pesquisas: diferentes propostas econômicas podem produzir efeitos sobre juros, inflação, câmbio e preços dos ativos.

Pesquisas divulgadas nos últimos dias apontaram uma disputa apertada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), com cenários de empate técnico em diferentes simulações de primeiro e segundo turno.

Para os investidores, entretanto, as pesquisas são apenas uma das variáveis. As propostas apresentadas durante a campanha para gastos públicos, tributação, programas sociais, privatizações, investimentos e controle da dívida também podem alterar as expectativas sobre a economia brasileira.

“Em momentos de eleição, é natural que o investidor queira saber quem vai ganhar. Mas, do ponto de vista patrimonial, a pergunta mais importante é outra: o que pode acontecer com os ativos em cada cenário? Não é necessário escolher um lado político para tomar decisões financeiras. É preciso entender quais são as variáveis econômicas que podem mudar e construir uma estrutura patrimonial que não dependa de um único resultado eleitoral”, explica Yuri Cavalcante, sócio e diretor comercial da Aplix Capital Group.

Contas públicas entram no radar

Um dos pontos acompanhados pelo mercado durante o período eleitoral é a política fiscal, que envolve a arrecadação do governo, seus gastos e a administração da dívida pública.

Propostas que aumentem despesas de forma permanente sem indicar fontes suficientes de financiamento podem elevar a preocupação dos investidores com a trajetória da dívida. Esse movimento pode aumentar a percepção de risco e pressionar as taxas de juros negociadas no mercado.

No sentido contrário, medidas de contenção de despesas, revisão de gastos obrigatórios e reformas que melhorem as perspectivas para as contas públicas podem contribuir para reduzir o prêmio de risco exigido pelos investidores.

As propostas tributárias também podem ter impactos diferentes conforme os setores atingidos e a forma como são financiadas.

Reduções de impostos podem favorecer consumo ou investimentos, mas também podem provocar perda de arrecadação caso não sejam acompanhadas de compensações. Elevações de tributos, por sua vez, podem afetar custos, margens das empresas e decisões de investimento.

“Não basta olhar se uma proposta aumenta ou reduz impostos. É necessário entender quem será tributado, qual será o impacto sobre a arrecadação, como o governo pretende financiar suas despesas e quais serão os efeitos sobre empresas, consumidores e investidores. Uma medida aparentemente positiva em uma ponta pode gerar consequências em outra”, afirma Yuri.

Juros, inflação e câmbio podem reagir às propostas

A situação das contas públicas tem relação direta com as condições de financiamento do governo. Quando aumenta a percepção de risco fiscal, investidores podem exigir juros maiores para adquirir títulos da dívida pública.

Além de afetar os títulos negociados no mercado, juros elevados podem encarecer o crédito para empresas e consumidores.

A política fiscal também pode ter reflexos sobre a inflação. Medidas de estímulo à atividade econômica podem aumentar o consumo e os investimentos, mas, dependendo do contexto econômico e da capacidade de produção do país, também podem ampliar pressões sobre os preços.

Esse cenário influencia as decisões do Banco Central sobre a taxa básica de juros.

O câmbio, por sua vez, responde a diferentes fatores, entre eles risco fiscal, taxas de juros, entrada e saída de capital e expectativas sobre a economia brasileira.

“Juros, inflação e câmbio não são variáveis isoladas. Uma decisão de política econômica pode desencadear uma sequência de efeitos. É por isso que a diversificação patrimonial precisa considerar diferentes cenários, e não apenas diferentes produtos financeiros”, destaca o executivo.

Privatizações e investimentos públicos também entram na conta

Outro ponto relevante durante a campanha será a posição dos candidatos sobre o papel do Estado na economia.

Propostas de privatizações, concessões, abertura de mercados e redução da participação estatal podem afetar setores regulados e empresas controladas pelo poder público.

Por outro lado, programas que prevejam maior participação estatal e ampliação do investimento público podem aumentar a demanda em áreas como infraestrutura, construção, energia e indústria. Os efeitos dependerão, entre outros fatores, da escala dos projetos e da forma de financiamento.

Programas de estímulo ao consumo também podem favorecer determinados setores da economia, ao mesmo tempo em que seus impactos fiscais e inflacionários passam a ser acompanhados pelo mercado.

Para Yuri Cavalcante, estruturar os investimentos em torno da expectativa de vitória de um candidato aumenta a dependência do patrimônio em relação ao resultado eleitoral.

“Tentar acertar antecipadamente qual candidato vai vencer e posicionar todo o patrimônio em função disso pode transformar uma decisão de investimento em uma aposta política. O patrimônio precisa ser estruturado para funcionar em diferentes ambientes econômicos, inclusive aqueles que o investidor não considera o mais provável”, pondera Yuri.

Diversificação reduz dependência de um único cenário

A estratégia adequada para cada investidor depende de fatores como patrimônio disponível, necessidade de liquidez, prazo dos investimentos, tolerância a risco e objetivos financeiros.

Em um cenário de juros elevados, a renda fixa tende a continuar ocupando espaço nas carteiras. Caso os juros caiam e a percepção de risco diminua, ativos de maior risco podem se tornar relativamente mais atraentes.

Já a exposição a investimentos internacionais e ativos vinculados a outras moedas pode ajudar a reduzir a concentração do patrimônio exclusivamente no mercado brasileiro.

“Isso não significa antecipar movimentos de mercado, mas construir uma estratégia capaz de absorver diferentes resultados. A eleição pode mudar o cenário econômico, mas não deveria determinar sozinha o planejamento patrimonial de uma família. O objetivo é justamente reduzir a dependência do patrimônio em relação a uma única variável, seja ela um candidato, uma taxa de juros ou um cenário específico”, reforça o sócio da Aplix Capital.

Para investidores com patrimônio mais elevado, o período eleitoral também pode motivar uma revisão mais ampla da estrutura financeira, incluindo concentração de ativos, exposição ao mercado brasileiro, liquidez, tributação, planejamento sucessório e objetivos de longo prazo.

“Mais importante do que tentar prever o próximo movimento da Bolsa ou das pesquisas é ter clareza sobre quanto risco o patrimônio está efetivamente carregando. Em um ano eleitoral, essa análise ganha ainda mais importância porque a volatilidade tende a aumentar, mas os princípios de planejamento patrimonial permanecem os mesmos: diversificação, visão de longo prazo e alinhamento entre estratégia e objetivos. Em cenários de maior incerteza, também é importante evitar movimentos abruptos e tomar decisões de forma gradual, ajustando a exposição do patrimônio por partes, conforme as mudanças de cenário se confirmem”, conclui o gestor.

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