Há um ponto bastante comum entre a Grande Fortaleza e o Crajubar, as duas maiores regiões metropolitanas do Ceará respectivamente: o direito à cidade passa, obrigatoriamente, por sistemas integrados e que promovem a inclusão de pessoas com deficiência.
O direito fundamental de ir e vir é, em sua essência, o direito de pertencer plenamente à cidade, mas essa premissa só se concretiza quando a infraestrutura urbana deixa de ser um muro e passa a ser uma ponte para a diversidade humana. No Ceará, os cenários da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) e da Região Metropolitana do Cariri (RMC) revelam que a mobilidade urbana só cumpre sua função social quando é pensada sob a ótica da acessibilidade, garantindo que o deslocamento seja um meio de acesso à saúde, ao emprego e à cidadania.
Na capital cearense, o sistema de transporte enfrenta o desafio de recuperar passageiros após uma queda de 54% na demanda na última década, em um contexto em que a motorização individual cresceu drasticamente. Para que o transporte público recupere sua atratividade e promova inclusão, a Etufor mantém uma frota de 1.170 ônibus 100% acessíveis, equipados com elevadores, espaços para cadeiras de rodas, sinalização em braile e avisos sonoros.
Esse suporte físico é essencial para os cerca de 61,5 mil usuários atendidos pelo Cartão Gratuidade, política que garante autonomia para 41,3 mil pessoas com deficiência intelectual, 12,2 mil com deficiência física, 3,2 mil com deficiência visual, 2,9 mil com deficiência auditiva e 1,7 mil com múltiplas deficiências, segundo nota enviada pela empresa.
Contudo, a acessibilidade efetiva exige um olhar que ultrapasse as portas do veículo. Mariana Dumont, especialista em Engenharia de Infraestrutura Urbana pela Universidade Federal do Cariri (UFCA) e que atua em projetos de infraestrutura e na gestão de serviços públicos, ressalta que o sucesso da mobilidade depende da continuidade do trajeto: “acessibilidade não é a rampa isolada nem o elevador do terminal. É a jornada completa, da calçada à parada e da parada ao veículo. Um único elo quebrado inutiliza todo o resto, e é justamente na conexão entre o transporte e a calçada que mais falhamos”.
Essa falha de conexão é agravada pela carência de integração tarifária entre os ônibus e o sistema metroviário, o que limita o direito de circulação de quem mais depende do transporte público.

Cenário do Cariri
No sul do Estado, a realidade do triângulo Crajubar (Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha) demanda uma governança que acompanhe a integração natural dessas cidades, que concentram serviços de alta complexidade e atraem milhares de pessoas diariamente.
No que diz respeito à frota regulamentada, a Via Metro, responsável pelo transporte coletivo nas três cidades, opera com 54 ônibus, sendo 100% da frota acessível. Entretanto, a ausência de um sistema regional contínuo obriga a população a recorrer a transportes alternativos, que possuem horários limitados e muitas vezes não oferecem as condições necessárias de adaptação.
Sobre essa fragmentação, Mariana Dumont enfatiza o impacto social direto na vida dos cidadãos: “O Crajubar já funciona como uma única cidade conurbada, que concentra os serviços, a saúde, o comércio e a educação do Sul cearense. Sem transporte público contínuo e integrado, quem mais paga a conta é a população de menor renda, que depende do deslocamento diário para trabalhar e estudar e fica refém do transporte alternativo”.
Para a especialista, a acessibilidade deve ser encarada como uma política de Estado perene e um requisito contratual rigoroso, garantindo que a inclusão seja uma condição inegociável para o exercício da cidadania.
A meta para as próximas décadas é consolidar redes de transporte que sejam, acima de tudo, equitativas. Seja pela integração tarifária em Fortaleza ou pela criação de consórcios intermunicipais no Cariri, a evolução urbana será medida pela autonomia proporcionada aos seus habitantes.
A verdadeira mobilidade existe apenas quando garante que um idoso, um trabalhador ou uma pessoa com deficiência consigam acessar seus destinos com a mesma dignidade e segurança.
