Por que tantas empresas perdem processos trabalhistas que acreditavam ganhar?

Não basta ter razão. É preciso conseguir demonstrá-la
Homem de negócios vestindo terno consulta agenda em frente a governador
Foto: Magnific

Muitas empresas perdem processos trabalhistas não porque agiram de forma irregular, mas porque não conseguem provar o que ocorreu. Registros incompletos, orientações verbais e confiança excessiva em testemunhas fragilizam a defesa. A proteção jurídica começa na rotina, com documentos, procedimentos e decisões devidamente registrados.

“Doutor, mas ele está mentindo.”

Essa talvez seja uma das frases que mais ouvimos quando um empresário chega ao escritório após receber uma reclamação trabalhista.

Logo depois, costuma vir outra:

“Todo mundo aqui sabe como realmente aconteceu.”

E, quase sempre, a conversa termina com uma conclusão que parece tranquilizadora:

“Nós sempre fizemos assim e nunca tivemos problema.”

Essas afirmações fazem sentido para quem vive a rotina da empresa. O empresário conhece seus colaboradores, acompanhou os fatos e acredita que a verdade será suficiente para convencer o juiz.

Mas é justamente nesse ponto que mora um dos maiores equívocos.

Em um processo trabalhista, não basta ter razão. É preciso conseguir demonstrá-la.

Jorge Soares, advogado e sócio-diretor do escritório Tomaz & Soares
Jorge Soares é advogado e sócio-diretor do escritório Tomaz & Soares

Muitas empresas acreditam que cumpriram corretamente suas obrigações: pagaram salários, concederam férias, respeitaram horários, orientaram seus funcionários e aplicaram advertências quando necessário. Ainda assim, acabam sendo condenadas porque não conseguem comprovar esses fatos de forma consistente.

A prova não é construída quando a ação judicial é proposta. Ela começa a ser formada muito antes, durante a rotina da empresa.

Um cartão de ponto preenchido de maneira inadequada, uma orientação transmitida apenas verbalmente, uma advertência que nunca foi formalizada, um treinamento realizado sem qualquer registro ou uma conversa importante restrita ao WhatsApp podem parecer detalhes sem importância no dia a dia. Contudo, quando o conflito chega ao Judiciário, esses detalhes passam a ter enorme relevância.

Outro aspecto que merece atenção é a confiança excessiva na memória das pessoas.

É comum ouvir que determinado gerente, supervisor ou colega de trabalho poderá esclarecer tudo em audiência. Entretanto, meses ou até anos depois dos acontecimentos, lembranças se confundem, versões divergem e testemunhas deixam a empresa ou simplesmente não recordam os fatos com a precisão necessária.

Enquanto isso, documentos produzidos no momento correto costumam transmitir muito mais segurança do que recordações reconstruídas com o passar do tempo.

Isso não significa que toda empresa será condenada ou que o empregador esteja sempre em desvantagem. Significa apenas que a boa gestão também envolve organização, registros e procedimentos capazes de demonstrar que as decisões foram tomadas de maneira adequada.

Empresas que tratam a documentação apenas como uma obrigação burocrática frequentemente descobrem, tarde demais, que ela era um importante instrumento de proteção jurídica.

No fim das contas, muitos processos não são perdidos porque a empresa agiu de forma irregular. São perdidos porque a realidade vivida dentro da organização não conseguiu ser reproduzida por meio das provas apresentadas em juízo.

Por isso, vale uma reflexão.

O processo trabalhista não começa no dia em que a empresa recebe uma citação.

Ele começa muito antes, em cada documento produzido, em cada orientação registrada e em cada decisão tomada durante a rotina da empresa.

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