Cartas Braille: projeto dissemina conhecimento e ensina empatia dentro e fora da universidade

No Crato, projeto criado por professora da Universidade Regional do Cariri (URCA) desperta a curiosidade da comunidade e transforma a comunicação tátil em ponte para a acessibilidade
Na imagem o reglete, base com linhas de pequenas celas vazadas que servem para guiar a escrita. E o punção, uma "caneta" pontiaguda que empurra o papel contra os buraquinhos da reglete, criando os pontos em alto relevo pelo lado de trás da folha.
Na imagem o reglete, base com linhas de pequenas celas vazadas que servem para guiar a escrita. E o punção, uma "caneta" pontiaguda que empurra o papel contra os buraquinhos da reglete, criando os pontos em alto relevo pelo lado de trás da folha (Foto: Breno Árleth)

O projeto Cartas Braille, da URCA, usa mensagens em braille para despertar curiosidade e aproximar pessoas videntes do sistema de leitura e escrita usado por pessoas cegas. A iniciativa transforma a educação em ferramenta de inclusão, combatendo preconceitos e ampliando a acessibilidade comunicacional. Com essa história de empatia e aprendizado, o projeto Direito de Acesso encerra sua jornada destacando experiências que promovem pertencimento no Ceará.

Imagine receber um envelope misterioso. Dentro dele, uma mensagem cotidiana e carismática, como o simples desejo de uma boa semana para um professor, mas escrita em um sistema que você não consegue decifrar apenas com os olhos.

É com esse exercício instigante de empatia e curiosidade que o projeto “Cartas Braille” dissemina a importância de aprendermos a ler e escrever em braille. Promovida pela Universidade Regional do Cariri (URCA), a iniciativa mostra o poder da educação como ferramenta poderosa para a quebra de barreiras e a promoção da inclusão de pessoas com deficiência visual.

O projeto foi criado em 2018, quando se observou que a quantidade de pessoas capazes de ler ou escrever em braille na URCA era baixa e restringia-se praticamente aos próprios alunos cegos ou aos estudantes videntes que já cursavam a disciplina de Braille.

Foi diante desse cenário que a professora Martha Milene Fontenelle Carvalho, docente do curso de Letras à frente da disciplina e doutora com pós-doutorado em educação, decidiu criar o projeto para mudar essa realidade. A ideia foi usar o inusitado e explorar a curiosidade das pessoas com uma carta escrita em um padrão não usual, convidando inicialmente a comunidade acadêmica, à busca pela aprendizagem do braille.

Tereza durante o processo de criação das cartas
Tereza durante o processo de criação das cartas (Foto: Breno Árleth)

A curiosidade como gatilho para a aprendizagem

As correspondências são produzidas pela bolsista do projeto com o apoio do Núcleo de Acessibilidade da URCA (NUARC) e distribuídas dentro e fora do ambiente universitário, garantindo que qualquer pessoa também possa participar produzindo suas próprias mensagens. “Se eu entregar cartas, mensagens em braille, as pessoas vão ficar curiosas para saber o que é aquilo”, explica a professora Martha sobre percepção que levou ao projeto.
E a estratégia de fato funciona.

Ao receber a carta, o destinatário é provocado a transcrever o código para compreender a mensagem, um esforço que começa a gerar acessibilidade comunicacional. Caso encontre dificuldades durante a decodificação, o próprio envelope traz orientações e avisa que o leitor pode procurar o NUARC, onde a equipe do projeto irá auxiliá-lo a compreender a mensagem. O desenrolar da iniciativa gera um espaço de formação criativa e pode-se afirmar lúdica, propiciando que pessoas que não conheciam o braille desenvolvam essa nova habilidade de uma forma quase que despretensiosa.

O compartilhamento do sistema de leitura e escrita braille através do projeto, ajuda a derrubar inclusive barreiras não físicas, como reflete a estudante de graduação Tereza Sibelly, bolsista responsável por produzir as cartas. “Eu acho que muitas pessoas podem ainda hoje pensar que uma pessoa cega pode não saber escrever, ou então não pode ter autonomia com relação à escrita e à leitura, e à medida que eu insiro essas pessoas em contato com o sistema braille, estou fazendo com que preconceitos sejam quebrados”, destaca.

Demonstração de carta após a conclusão da mensagem
Demonstração de carta após a conclusão da mensagem (Foto: Breno Árleth)

Legado

Ao possibilitar o aprendizado do código por um método fora do comum e simples, o projeto oportunizou mudanças sutis, mas de grande valor no que diz respeito a ampliar o conhecimento sobre a língua, influenciando o processo de inclusão de pessoas com deficiência visual. “As pessoas sempre se mostram animadas. A ideia de que você vai aprender uma nova forma de escrita e que isso vai possibilitar inclusão e maior proximidade com uma pessoa com deficiência visual é muito interessante”, conta Martha.

E os resultados dessa proximidade já são visíveis no campus: “Na universidade, não vejo distanciamento entre pessoas cegas e videntes. Eu vejo uma proximidade, as pessoas criando vínculos de amizade. Eu vejo conexão”, celebra a professora.

Para que a inclusão aconteça de forma genuína, a educação abraça o seu papel como ferramenta de garantia de inclusão e pertencimento. “O projeto é importante para divulgação do código. São histórias que marcam ver todas as vezes que eu executei o projeto e vi pessoas aprendendo o que é um reglete, uma função, um código que formou a mensagem”, conclui Martha.

Banner horizontal do projeto “Direito de Acesso”. À esquerda, fundo azul com o título “Direito de Acesso”, sendo “Direito de” em azul claro e “Acesso” em branco, acompanhado de um traço curvo abaixo da palavra. À direita, em fundo claro, aparecem as identificações institucionais: “Realização: O Veredito”; “Patrocínio: Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (ALECE)”; e “Apoio institucional: OAB Ceará”, com suas respectivas logomarcas.

Veja também