Ausência de políticas públicas torna envelhecimento da população desafio para o País

Pesquisa de professora de Fortaleza revela um país que não prepara suas gerações para conviver com a velhice
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O envelhecimento exige políticas articuladas em múltiplas frentes: saúde, assistência social, mobilidade, cultura e educação. Foto: Freepik

O Brasil envelhece rapidamente, mas segue sem políticas públicas estruturadas para atender às novas demandas dos idosos. Pesquisa revela que crianças demonstram empatia e valorizam os mais velhos, mas quase não convivem com eles fora do ambiente familiar. O estudo alerta que a falta de integração entre gerações aumenta o risco de idosos se tornarem ainda mais invisíveis na sociedade.

O envelhecimento acelerado da população é um desafio para o futuro do país ante a ausência de políticas públicas capazes de responder à nova realidade demográfica. É o que aponta uma pesquisa realizada na rede pública de ensino de Fortaleza. O trabalho mostra que a relação das crianças com pessoas idosas expõe tanto afetos quanto silenciamentos — e revela um país que não prepara suas gerações para conviver com a velhice.

O estudo parte de um dado central: segundo o IBGE, o Brasil tem hoje cerca de 32 a 33 milhões de idosos, cerca de 15% da população, e tende a se tornar uma das nações mais envelhecidas do mundo nas próximas décadas. A pesquisa compõe a dissertação de mestrado “A cultura para o envelhecimento no contexto da rede pública de ensino de Fortaleza/CE”, da professora Karla Mincolla (2025).

Segundo a autora, essa transformação “impacta diretamente não apenas a vida das pessoas, mas também seus contextos econômicos, sociais e culturais”, exigindo redesenho das políticas públicas.

Escolas como espaços-chave para políticas sobre envelhecimento

A pesquisa analisou produções de crianças do Ensino Fundamental e identificou que elas atribuem aos idosos um misto de carinho, respeito e estereótipos. Para Mincolla, essa relação precisa ser compreendida como oportunidade de educação social.

“A promoção de pesquisas e políticas públicas sobre velhice saudável e longevidade deve ocupar cada vez mais espaço nos municípios”, aponta a autora. Segundo ela, escolas são ambientes estratégicos para discutir o envelhecimento, pois ali se formam percepções que acompanharão esses jovens por toda a vida.

A dissertação defende que programas escolares envolvendo convivência intergeracional — oficinas, rodas de conversa, visitas a centros de idosos e atividades colaborativas — ajudam a desconstruir preconceitos e aproximam as gerações. “É preciso investir em ações que construam uma cultura do envelhecimento desde a infância”, afirma.

Políticas públicas insuficientes diante de um país que envelhece rápido

O trabalho conclui que o Brasil não está preparado para o cenário demográfico. O envelhecimento exige políticas articuladas em múltiplas frentes: saúde, assistência social, mobilidade, cultura e educação, mas o avanço é lento e irregular.

A dissertação cita que o envelhecimento é um fenômeno que “tem alterado não só a curva demográfica, mas também o modo como países se posicionam em relação aos idosos, às estruturas sociais e às políticas públicas”. No entanto, apesar da urgência, a autora aponta que municípios como Fortaleza ainda carecem de programas contínuos que promovam convivência, respeito e inclusão.

Velhice ainda é associada à doença e dependência

O estudo mostra que, mesmo em narrativas positivas, crianças reproduzem estereótipos recorrentes — como a ideia de que envelhecer significa, inevitavelmente, adoecer ou se tornar dependente. Essa percepção, ainda que muitas vezes aprendida no contexto familiar, reforça desigualdades simbólicas.

“A velhice é atravessada por múltiplas representações”, diz a autora. “Reconhecer essas narrativas é fundamental para construir políticas que compreendam o envelhecimento como processo diverso, e não como fim da potência social.”

Políticas intersetoriais: uma urgência ignorada

Embora o Estatuto do Idoso e a Política Nacional da Pessoa Idosa existam há muitos anos, sua implementação efetiva segue frágil — especialmente em nível municipal, onde a vida acontece. A dissertação defende que é papel dos municípios formular políticas integradas, tais como:

• ações de saúde preventiva e acompanhamento contínuo;
• ampliação de centros de convivência e programas culturais;
• incentivo à autonomia e participação social dos idosos;
• formação de professores e servidores sobre envelhecimento;
• programas permanentes de convivência entre crianças e idosos.

A autora reforça que é preciso compreender o envelhecimento como fenômeno cultural e social, e não apenas biomédico.

Um país que envelhece sem debate público

Ao aprofundar a fala das crianças, a pesquisa revela que o envelhecimento é quase invisível nas políticas públicas e na formação educacional. A ausência de discussão sobre o tema nas escolas, famílias e meios de comunicação contribui para um distanciamento que se reflete na falta de planejamento institucional.

“Se o Brasil já convive com mais de 30 milhões de idosos, é urgente que a sociedade, especialmente por meio de suas políticas públicas, enxergue esse grupo como protagonista do presente e do futuro”, conclui a dissertação.

O trabalho aponta que o envelhecimento populacional não é um problema, é uma conquista. O desafio está no despreparo do país, que insiste em invisibilizar a velhice, ignorar o diálogo entre gerações e atuar apenas de forma reativa, quando deveria planejar.

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