Motoristas de aplicativo têm gastos mensais de mais de R$ 5 mil, aponta TST

Estudo alerta para risco de endividamento, instabilidade de renda e transferência dos custos da atividade aos trabalhadores
Painel de carro com motorista ao volante e celular com GPS ligado
Levantamento chama atenção para o modelo de trabalho mediado por plataformas digitais (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Motoristas de aplicativo têm gastos mensais acima de R$ 5 mil, segundo levantamento do TST. As despesas chegam a R$ 5.566 para quem usa carro próprio e R$ 5.706 para quem trabalha com veículo alugado. O estudo alerta para jornadas extensas, falta de transparência na remuneração e risco de endividamento desses trabalhadores.

Um levantamento do Tribunal Superior do Trabalho aponta que motoristas de aplicativo enfrentam gastos mensais superiores a R$ 5 mil para exercer a atividade no Brasil.

A análise foi produzida pelo Centro de Pesquisas Judiciárias, Estatística e Ciência de Dados do TST e considera um perfil de motorista que trabalha 22 dias por mês, durante oito horas diárias, com velocidade média efetiva de 25 km/h em contexto urbano.

De acordo com o estudo, os gastos mensais chegam a R$ 5.566 para motoristas que utilizam veículo próprio. Para aqueles que trabalham com carro alugado, as despesas sobem para R$ 5.706.

O cálculo inclui custos como combustível, manutenção, depreciação do veículo, seguros, tributos, pacotes de internet móvel, multas e alimentação.

Custos e riscos ficam com os motoristas

O levantamento chama atenção para o modelo de trabalho mediado por plataformas digitais. Segundo o TST, mais de 1,7 milhão de pessoas trabalham no Brasil por meio de plataformas e aplicativos de serviços.

No caso do transporte individual de passageiros, as empresas afirmam atuar no ramo de tecnologia e negam a existência de vínculo empregatício com os motoristas. Na prática, porém, os trabalhadores assumem os custos e os riscos da atividade.

O estudo também aponta falta de transparência e previsibilidade na remuneração. As plataformas chegam a descontar entre 20% e 30% dos ganhos dos motoristas pela intermediação com os clientes, mas esse cálculo não é explicitado aos trabalhadores.

Jornada é maior que a do setor privado

Outro ponto destacado pelo levantamento é a sobrecarga de trabalho. Com base em dados da PNAD Contínua de 2024, do IBGE, o TST aponta que trabalhadores plataformizados têm média semanal de 44,8 horas.

O número é superior à média do setor privado, que é de 39,3 horas semanais. A diferença é de 5,5 horas a mais por semana.

Para os pesquisadores, os dados reforçam um quadro de precarização, marcado por jornadas extensas, instabilidade de renda e ausência de proteção trabalhista tradicional.

Controle por algoritmos

A pesquisa também aborda o que chama de subordinação algorítmica. Segundo os dados analisados, a maior parte dos motoristas não tem ingerência sobre o valor cobrado pelas corridas nem liberdade plena para escolher os clientes que irá atender.

Para o TST, isso indica que o controle da atividade é exercido de forma unilateral pelas plataformas, inclusive por meio de mecanismos de gamificação, premiações e punições.

O presidente do TST, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, afirmou que a ideia de “liberdade empreendedora” associada ao trabalho por aplicativos pode ocultar violações à dignidade do trabalhador.

Segundo ele, o trabalho em plataformas digitais é marcado por precarização, jornadas extenuantes, baixas remunerações e alto controle por algoritmos.

Endividamento preocupa

O documento também alerta para o risco de aumento do endividamento dos motoristas, provocado pela instabilidade da renda, pela imprevisibilidade dos custos e por modalidades de crédito vinculadas às próprias plataformas.

Uma das preocupações é a possibilidade de empréstimos oferecidos por meio das plataformas de transporte, em parceria com instituições financeiras. As parcelas podem ser descontadas diretamente do valor recebido nas corridas e chegar a 30% dos ganhos.

Na avaliação dos pesquisadores, esse modelo pode aprofundar a vulnerabilidade financeira dos trabalhadores e reproduzir práticas antigas de exploração em ambiente digital.

O levantamento foi divulgado em meio ao avanço mundial do debate sobre trabalho decente em plataformas digitais. A Organização Internacional do Trabalho aprovou, em junho, uma convenção internacional sobre o tema, defendendo proteção a direitos fundamentais, liberdade sindical, negociação coletiva, segurança e condições dignas para trabalhadores da economia de plataforma.

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