A frase atribuída a Júnior Mano no relatório da Polícia Federal é curta, mas devastadora: “Cascavel, Morada Nova, Canindé, eleição é nossa”. No documento do Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal, ela aparece como um dos trechos mais fortes da investigação porque resume, na leitura da PF, uma articulação política voltada a municípios considerados estratégicos no Ceará, em conexão com o grupo liderado por Carlos Alberto Queiroz Pereira, o Bebeto do Choró.
Se o noticiário da última semana se concentrou em Morada Nova, o relatório sugere um desenho mais amplo. A investigação trata o caso não como um episódio restrito a uma cidade, mas como uma rede com ramificações por diferentes municípios, especialmente Canindé, Morada Nova, Cascavel e Choró. Em Cascavel, esse eixo ganhou novo peso porque o próprio nome da atual prefeita Ana Afif aparece nas mensagens analisadas pela PF, e porque já existe, no TRE-CE, uma frente judicial que pode ampliar o alcance da apuração.
Cascavel deixa de ser coadjuvante
Entre as três cidades da frase mais contundente do relatório, Cascavel vinha aparecendo menos detalhada que Canindé e Morada Nova. Mas isso muda quando se observa o trecho em que a PF relata conversas sobre “situações político-eleitorais relativas à cidade de Cascavel”, com foco em manutenção de apoios e controle de lideranças locais. Nesse contexto, Bebeto é descrito como fiador das articulações do grupo. 
É nesse ponto que surge o nome da prefeita. Segundo o relatório, Bebeto orienta um interlocutor a mobilizar “Ana Afif, então candidata e hoje prefeita eleita” para reagir a pressões políticas. A frase transcrita pela PF é a seguinte: “Então pronto. A Ana, a Ana chama, faça uma reunião com a Ana, leve eles tudim e pode dar segurança a eles, quem ganha eleição é nós viu!”. Para a investigação, o diálogo reforça o papel de Bebeto como garantidor político das ações do grupo em Cascavel.
Conforme o relatório, esse trecho revela que Cascavel deixa de ser apenas uma cidade mencionada na frase “eleição é nossa” e passa a aparecer com nome de agente político local citado nominalmente no relatório.
Elo com o TRE-CE amplia o alcance de Cascavel
Esse peso político já vinha se refletindo fora do relatório. No último dia 2, o TRE-CE manteve a quebra de sigilo bancário de Bebeto do Choró e de outros investigados em uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) que envolve a prefeita Ana Afif e o vice Rogério Lima em Cascavel. A decisão negou um mandado de segurança que tentava barrar diligências já autorizadas em primeira instância.
A AIJE apura suposto abuso de poder político e econômico e inclui, além de Ana Afif e Rogério Lima, nomes como Flávio Nojosa, Pompeu e o próprio Bebeto Queiroz. Com a decisão, a manutenção da quebra de sigilo abre caminho para rastrear movimentações financeiras que podem revelar conexões com campanhas e estruturas políticas em outros municípios.
Ou seja, Cascavel não aparece apenas como peça citada no relatório da PF. Ela já é também objeto de um processo eleitoral em curso, com potencial de irradiar consequências para além do município. Essa informação reforça o sentido da frase atribuída a Júnior Mano: a investigação não está olhando para cidades isoladas, mas para um possível circuito político-financeiro regional.
Canindé: o município onde a engrenagem ganha rosto político
Se Cascavel ganha densidade com a citação a Ana Afif e o processo no TRE, Canindé continua sendo o município onde o relatório reúne mais personagens e mais camadas de suspeita. Foi a partir da denúncia da então prefeita Rozário Ximenes que a apuração ganhou força. Segundo o documento, ela apontou a existência de um esquema de compra de votos e associou diretamente Bebeto e Júnior Mano à rede investigada.
Canindé também concentra o capítulo mais sensível sobre emendas. O relatório registra diálogo em que Ilomar Vasconcelos, então vice-prefeito, é mencionado como alguém que teria oferecido “a emenda do Guimarães” para o “caixa”, expressão que a PF interpreta como indício de intermediação de emendas com retorno financeiro ilícito. 
É ainda em Canindé que a investigação coloca Professor Jardel no pano de fundo político do caso e menciona “Louro dos Targinos”, apontado por Rozário como integrante de facção local ligado ao grupo político do então candidato. O relatório usa esse trecho para sustentar a hipótese de cruzamento entre frente eleitoral, operadores financeiros e presença de atores criminosos. 
Morada Nova: a cidade onde a engrenagem ficou mais exposta
Morada Nova virou o rosto público da investigação na semana passada, mas no relatório ela aparece como parte de algo mais amplo. O município é tratado como cidade estratégica dentro da expansão eleitoral do grupo.
A leitura da polícia é que Morada Nova funcionava quase como vitrine do projeto. Se em Cascavel o relatório revela articulação com lideranças locais e, em Canindé, expõe a conexão entre denúncia, emenda e grupo político, em Morada Nova aparecem com mais força os sinais de planejamento eleitoral, pesquisa, comunicação e estrutura de influência. 
Choró: a base estrutural do esquema
Ao lado de Canindé, Choró é apontado no relatório como um dos municípios em que a influência de Bebeto era mais expressiva. A PF afirma que a estratégia do grupo visava consolidar controle territorial e criar uma rede de aliados políticos, especialmente em Choró e Canindé. 
O relatório também liga Choró ao fluxo financeiro do esquema. Segundo a PF, a MK Empreendimentos, formalmente em nome de Maurício Gomes Coelho, era controlada de fato por Bebeto e celebrou contratos que ultrapassam R$ 318 milhões, com destaque justamente para municípios como Canindé, Choró e Itapajé. A investigação diz que os maiores volumes de recursos se concentravam onde o grupo exercia influência política mais forte.
Lidas em conjunto, essas peças sugerem que a PF tenta demonstrar um mapa político de atuação, e não apenas um conjunto de escândalos separados. A frase “Cascavel, Morada Nova, Canindé, eleição é nossa” concentra essa lógica porque aponta, ao mesmo tempo, para ambição territorial, articulação entre lideranças e percepção de domínio prévio sobre disputas locais. 
É importante registrar que o relatório reúne indícios e conclusões investigativas da Polícia Federal, ainda sujeitos ao contraditório, às manifestações das defesas e à análise judicial.
À imprensa, Junior Mano tem ressaltado que os diálogos e informações divulgadas não contêm irregularidades, e que as conclusões da PF são “exageradas, genéricas e sem provas”. O parlamentar também critica o que ele chama de produção de fake news em período eleitoral.
Já a defesa de Bebeto do Choró afirma que irá se manifestar no foro adequado.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos outros citados.