Charlie Kirk, Eduardo Bueno e a regulação das redes sociais

Em nome da liberdade de expressão, é preciso regular as redes sociais
Charlie Kirk e Eduardo Bueno (Peninha)
Eduardo Bueno, o Penhinha, retratou-se por ironizar o assassinato de Charlie Kirk, ainda que com uma série de “poréns”. Foto: reprodução

As redes sociais manipulam a liberdade de expressão ao priorizar conteúdos que geram mais engajamento emocional, especialmente os que causam indignação. Essa lógica dos algoritmos distorce o debate público, radicaliza opiniões e favorece discursos extremistas. Por isso, é preciso uma regulação mínima das plataformas, comparando-a a regras urbanas necessárias para o bem coletivo.

O assassinato do influenciador Charlie Kirk, como qualquer assassinato, deve ser lamentado e repudiado. Mas houve quem comemorasse.

Aqui no Brasil, dois casos chamaram atenção. Um neurocirurgião pediu “um salve” ao atirador por ter atingido a coluna cervical da vítima.

E o historiador Eduardo Bueno, o Peninha, teve dois eventos cancelados depois de ironizar o crime e ainda dizer que isso foi bom para as duas filhas de Kirk.

O Penhinha se retratou. Reconheceu o “excesso”, ainda que com uma série de “poréns”.

Mas o que isso tem a ver com regulamentação de redes sociais?

O produto é você

Você paga para usar redes sociais?

Não, né? Então como as empresas por trás dessas redes lucram? Com publicidade. É aí que entram os famosos algoritmos, aqueles “robôs” que entregam o que eles entendem que você quer ver para ficar o maior tempo possível rolando a tela do seu celular. Sabe aquela olhadinha que você ia dar na rede social e, quando se deu conta, já havia passado 10 minutos? Isso foi graças ao algoritmo.

E o que é que tem mais chance de nos deixar mais “engajados”? Aquilo que mexe com nossas emoções, especialmente o que nos deixa indignados. Os criadores de conteúdo sabem disso e a tentação de apostar em assuntos assim é muito grande.

Essa é uma das explicações para o mundo tão polarizado que estamos vivendo. As redes sociais vão nos apresentando mais e mais conteúdos que reforçam nosso ponto de vista, e de forma cada vez mais radicalizada. Aí ficam grupos isolados em suas bolhas e de repente, famílias estão divididas e grupos tratando os que pensam diferente como inimigos.

Mas o que a liberdade de expressão tem a ver com isso? Considere o seguinte: duas pessoas com a mesma visão de mundo criam conteúdos diferentes. Um “denuncia” a prática inaceitável daquele sujeito de ideologia diferente. Com palavras fortes e fazendo revelações que deixam seus seguidores indignados.

O outro faz considerações lamentando a mesma prática do mesmo sujeito, mas faz isso de forma moderada, tentando entender porque ele pensa daquela forma e refutando os argumentos com respeito.

Quem vocês acham que o algoritmo vai distribuir para mais pessoas? E isso não tem a ver com número de seguidores. Não só.

Manipulação

Meu ponto é: que liberdade de expressão é essa na qual um software vai decidir qual conteúdo vai ser entregue para milhares, talvez milhões de usuários e qual será visto por uma fração dos próprios seguidores?

Vou reforçar fazendo uma comparação com uma praça. Se esses dois criadores de conteúdo pegam um megafone, eles podem transmitir suas mensagens para todas as mesmas pessoas que estão naquele local.

Numa rede social, isso não acontece. O conteúdo vai ser distribuído conforme o que o algoritmo entender que vai gerar mais engajamento. Ou seja, qual dos conteúdos vai deixar os usuários por mais tempo na plataforma. E esse conteúdo vai ser o que mais mexe com nossas emoções.

Isso é liberdade de expressão? Não. É o contrário disso. Essas ferramentas estão tirando nossa liberdade e querendo nos obrigar a apresentar o que ela quer.

Por isso, um mínimo de regulação é necessário. Não é um controle autoritário, mas uma forma de ordenar.

Regras para a coletividade

Novamente, fazendo uma comparação com um lugar físico. Se eu quero construir uma casa, eu preciso cumprir regras do ordenamento urbano da cidade. Não posso, por exemplo, construir o muro junto à rua. Preciso deixar uma calçada. Isso não tira a liberdade de quem quer construir a casa, mas há uma regra para que a cidade funcione para a coletividade.

Alguém pode dizer: “Ah, mas o Instagram derrubou o vídeo do Eduardo Bueno. Então, as redes podem exercer esse controle com a ajuda dos usuários”. Infelizmente, esse tipo de conduta é raro por parte das redes. Se fosse regra, as redes sociais (e o mundo) estariam bem diferentes hoje.

As redes sociais ganharam muita relevância e muito poder. Deixar que elas façam o que quiserem sem nenhum tipo de controle, não pode acabar bem.

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