O que está por trás do pedido de recuperação judicial da Casas Bahia?

Com dívida de R$ 17,3 bilhões e prejuízo bilionário, varejista sofre com crédito caro e consumidor endividado, mas crise também reflete dificuldades acumuladas pela própria companhia
Fachada de loja da Casas Bahia em shopping
Com dívida de R$ 17,3 bilhões, a varejista chega à Justiça depois de anos tentando reorganizar as próprias finanças (Foto: Divulgação/Casas Bahia)

A Casas Bahia pediu recuperação judicial com dívidas de R$ 17,3 bilhões após anos de dificuldades financeiras e tentativas de reestruturação. Juros altos, crédito caro e endividamento das famílias agravaram a crise, mas os problemas da empresa são anteriores e não podem ser explicados apenas pela conjuntura econômica. O grupo fechou quase 300 lojas e demitiu cerca de 3 mil funcionários em agosto, enquanto busca reorganizar as dívidas e manter as operações.

O pedido de recuperação judicial apresentado pelo Grupo Casas Bahia neste domingo (16) é resultado de uma combinação de fatores. O ambiente econômico brasileiro, marcado por juros elevados, crédito caro e forte endividamento das famílias, ajuda a explicar a deterioração financeira. Mas os números da companhia mostram que a crise não pode ser atribuída apenas à conjuntura do País.

Com dívida de R$ 17,3 bilhões, a varejista chega à Justiça depois de anos tentando reorganizar as próprias finanças. Em 2024, o grupo já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas. Dois anos depois, o problema ganhou outra dimensão.

No segundo trimestre de 2026, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, contra R$ 555 milhões no mesmo período do ano passado. Cerca de R$ 9,1 bilhões desse resultado, porém, decorreram de eventos considerados não recorrentes pela companhia, como baixas de ativos, despesas de reestruturação, contratos que não tiveram o desempenho esperado e efeitos relacionados ao Imposto de Renda diferido.

Mesmo retirando esses efeitos extraordinários, o quadro continuou negativo: o prejuízo ajustado chegou a R$ 978 milhões, 76% maior que o registrado um ano antes.

Juros altos atingem em cheio o modelo da Casas Bahia

Uma parte importante da explicação está no cenário econômico. A taxa básica de juros, a Selic, está atualmente em 14% ao ano, enquanto o crédito disponível para consumidores e empresas permanece caro. A própria Casas Bahia apontou juros elevados, restrição ao crédito e aumento dos custos financeiros entre os fatores que agravaram sua situação.

Esse ambiente é especialmente desfavorável para uma empresa cujo negócio historicamente depende da venda financiada de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos.

Quando os juros aumentam, o problema aparece dos dois lados. A própria companhia paga mais caro para financiar suas dívidas e seu capital de giro, enquanto o consumidor encontra prestações maiores e mais dificuldade para conseguir crédito.

Dados do Banco Central ajudam a dimensionar essa pressão. Em junho, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas chegou a 64% ao ano. O comprometimento da renda das famílias com dívidas alcançou 28,5%, enquanto o endividamento chegou a 49,8% da renda acumulada em 12 meses. (Agência Brasil)

Outro levantamento, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostrou que 81,6% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em maio, recorde da série pesquisada.

Em julho, 75,08 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, o equivalente a 44,75% da população adulta, segundo levantamento da CNDL e do SPC Brasil.

Para uma varejista que vende produtos de maior valor e tradicionalmente utiliza o parcelamento como instrumento importante de vendas, esse cenário reduz o espaço de consumo justamente ao mesmo tempo em que encarece a manutenção de uma dívida elevada.

Não é apenas uma crise do varejo

Os indicadores econômicos, porém, não permitem concluir que o pedido de recuperação judicial seja simplesmente consequência de uma crise generalizada das vendas no comércio.

Os dados mais recentes do IBGE mostram, inclusive, alguma expansão do setor. Em junho, as vendas do varejo cresceram 0,5% em relação a maio e 2,9% na comparação com junho de 2025. O segmento de móveis e eletrodomésticos, diretamente relacionado aos negócios da Casas Bahia, avançou 0,4% no mês.

Em maio, esse segmento já havia apresentado crescimento de 1,7% na comparação anual e acumulava alta de 3% nos cinco primeiros meses de 2026.

Há, portanto, uma diferença importante: o ambiente de juros e crédito dificulta a vida de praticamente todo o varejo, mas não explica sozinho por que a Casas Bahia chegou a uma dívida de R$ 17,3 bilhões e à necessidade de proteção judicial.

A situação financeira específica da companhia tem peso decisivo.

Problema vem de antes

A crise atual é também resultado de dificuldades acumuladas ao longo dos últimos anos.

No pedido apresentado à Justiça, o grupo relaciona sua situação a uma transformação iniciada ainda em 2019, com investimentos em tecnologia e digitalização, posteriormente atravessada pela pandemia e por um período prolongado de juros elevados.

Em agosto de 2023, a companhia já havia colocado em prática um plano de transformação para melhorar a rentabilidade e reduzir seu endividamento.

No ano seguinte, veio a recuperação extrajudicial. Na ocasião, o grupo renegociou aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas, principalmente com Banco do Brasil e Bradesco. O acordo alongou vencimentos e deveria preservar cerca de R$ 4,3 bilhões no caixa até 2027.

A recuperação extrajudicial, portanto, deu fôlego à empresa, mas não resolveu definitivamente seu problema financeiro.

Agora, dois anos depois, o valor das dívidas submetidas ao novo processo alcança R$ 17,3 bilhões. Desse total, cerca de R$ 16,4 bilhões correspondem a credores sem garantia específica, além de R$ 754 milhões em créditos trabalhistas e R$ 154 milhões devidos a micro e pequenas empresas.

Empresa vende mais, mas continua perdendo dinheiro

Mesmo no trimestre em que registrou prejuízo bilionário, a receita líquida da Casas Bahia cresceu 1,6%, chegando a R$ 6,97 bilhões. Ou seja: a empresa não deixou simplesmente de vender.

A dificuldade está em transformar as vendas em resultado suficiente para sustentar a operação, financiar o capital de giro e pagar as dívidas.

O Ebitda ajustado (indicador usado para medir o desempenho operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caiu 9,4%, para R$ 518 milhões. Ao mesmo tempo, o resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 1,278 bilhão.

A combinação é especialmente problemática para uma companhia muito endividada: mesmo que as lojas continuem vendendo, o custo financeiro pode consumir uma parcela elevada do resultado gerado pela atividade.

A auditoria EY já havia chamado atenção, nas demonstrações financeiras da companhia, para a existência de uma “incerteza relevante relacionada com a continuidade operacional”.

Fechamento de quase 300 lojas e 3 mil demissões

A dimensão da reestruturação mostra que o grupo também tenta reduzir estruturalmente seu tamanho.

Segundo a petição apresentada à Justiça, cerca de 3 mil trabalhadores foram demitidos somente em agosto, aproximadamente 10% dos 30.117 funcionários que a companhia possuía no fim de junho.

Quase 300 lojas também foram fechadas. A empresa está ainda reduzindo estoques e volumes de compras, revendo contratos, despesas administrativas e investimentos e concentrando recursos em canais e categorias considerados mais rentáveis.

Na petição, a Casas Bahia sustenta que sua operação continua economicamente viável e que a recuperação judicial é necessária para reorganizar o passivo enquanto executa essas mudanças.

Conjuntura econômica desfavorável

O caso da Casas Bahia também não ocorre isoladamente. Dados da Serasa Experian indicam que as recuperações judiciais continuam em patamar elevado no Brasil. Foram 53 processos em janeiro, 55 em fevereiro e 76 em março, envolvendo 176 empresas apenas no último desses meses. A instituição relaciona o movimento ao custo elevado das dívidas e às dificuldades das empresas para recompor o caixa.

No mesmo fim de semana em que a Casas Bahia apresentou seu pedido, a rede de móveis Marabraz também recorreu à recuperação judicial, com cerca de R$ 140 milhões em dívidas. No caso da empresa, além dos juros e do endividamento, foram apontadas dificuldades societárias e familiares que restringiram o acesso ao crédito.

Isso reforça que juros elevados e crédito restrito criaram um ambiente mais difícil para empresas endividadas. Mas cada recuperação judicial possui causas próprias.

Crise da Casas Bahia e da economia

O cenário econômico funciona como um agravante importante. Juros de 14% ao ano, crédito caro, inadimplência elevada e famílias endividadas atingem diretamente empresas que dependem de financiamento e vendas parceladas.

Mas os dados disponíveis apontam que o pedido de recuperação judicial da Casas Bahia decorre principalmente de uma fragilidade financeira própria, construída ao longo de vários anos.

A companhia já estava em processo de reestruturação desde 2023, renegociou R$ 4,1 bilhões em dívidas em 2024 e, mesmo assim, voltou a enfrentar problemas de liquidez. Agora, apresenta dívida de R$ 17,3 bilhões, sucessivos prejuízos e necessidade de reduzir drasticamente sua estrutura.

O fato de as vendas do varejo e até do segmento de móveis e eletrodomésticos ainda apresentarem crescimento também enfraquece a interpretação de que a situação seja consequência de uma crise generalizada do comércio.

Em outras palavras, os juros altos e o endividamento das famílias tornaram um problema que já existia muito mais difícil de administrar.

O que acontece agora

A recuperação judicial não significa falência nem o fechamento imediato da Casas Bahia.

O pedido ainda precisa ser analisado pela Justiça. Se o processamento for aceito, a empresa ganha proteção temporária contra determinadas cobranças e execuções enquanto negocia uma proposta para reorganizar e pagar suas dívidas, dentro das regras previstas na legislação.

Durante esse período, a companhia pretende manter suas atividades, incluindo lojas, vendas e prestação de serviços.

O Conselho de Administração aprovou o pedido no domingo, mas uma assembleia de acionistas ainda será convocada para deliberar sobre a medida. Na mesma reunião, renunciaram os conselheiros Jackson Medeiros de Farias Schneider e Rogério Paulo Calderón Peres. A companhia também aceitou a saída do então diretor vice-presidente Jurídico e Tributário, Fabio Spina.

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