Quando o olhar vira obstáculo: as barreiras que não se veem

As barreiras atitudinais se manifestam em atitudes, comportamentos e crenças que reforçam a exclusão
Fotografia colorida de Paulo Mateus, o Mateusinho do Acordeon. Ele é um jovem de pele parda, tem barba escura e curta, e sorri abertamente para a câmera. Ele usa óculos com lentes escuras e redondas, e um tradicional chapéu de couro nordestino (estilo cangaceiro) nas cores marrom e bege, decorado com apliques circulares prateados. Mateus veste uma camiseta branca e calça jeans, e está sentado em uma cadeira estofada azul-clara. Ele toca uma sanfona grande, predominantemente preta e creme com uma grade frontal prateada, mantendo as mãos posicionadas sobre as teclas e os botões de baixo do instrumento. O ambiente ao fundo é o interior de uma sala, iluminada pela luz do dia que entra por uma janela com cortinas brancas à esquerda. À direita, há uma parede com papel de parede que imita tijolinhos cinzas, vasos com plantas (incluindo uma espada-de-são-jorge) e um rack branco com três pequenos enfeites rústicos de cerâmica.

Barreiras atitudinais não estão no chão, mas nas atitudes que excluem pessoas com deficiência. Elas aparecem em comportamentos como infantilizar, duvidar da capacidade ou falar com o acompanhante em vez da própria pessoa. O MPCE atua para combater o capacitismo e promover mudanças culturais que garantam inclusão real.

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O obstáculo que não está no chão

O maior obstáculo nem sempre está no chão.
Não é só o degrau, a calçada quebrada ou a falta de rampa.
Muitas vezes, ele aparece na frase que diminui e no silêncio que exclui.

O que são barreiras atitudinais

As barreiras atitudinais são aquelas que não aparecem nos mapas urbanos nem nos projetos de engenharia, mas atravessam diariamente a vida das pessoas com deficiência. Elas se manifestam em atitudes, comportamentos e crenças que reforçam a exclusão.

Exemplos do dia a dia

Tratar uma pessoa com deficiência como incapaz, falar com o acompanhante em vez de falar diretamente com ela, infantilizar, superproteger ou duvidar da sua competência profissional são exemplos comuns dessas barreiras.

“A atitude não muda, a exclusão continua”

Para o revisor braille e músico cearense Paulo Mateus — conhecido como “Mateusinho do Acordeon” —, pessoa com deficiência visual desde o nascimento, as barreiras atitudinais são um dos principais entraves à inclusão.

“A acessibilidade física pode até existir, mas, se a atitude não muda, a exclusão continua. Isso limita oportunidades e autonomia.”

Sanfoneiro e tecladista, o jovem natural de Baturité relata que situações constrangedoras fazem parte do seu cotidiano.

Quando a “gentileza” vira limite

“As pessoas tratam você como um ser de vidro. Eu, por exemplo, levo a sanfona nas costas e, às vezes, alguém insiste em carregá-la pra mim. É uma gentileza exagerada, sem necessidade.”

Quando a suposição vira exclusão

Outra situação comum é ser tratado com base em suposições equivocadas.

“Eu não tenho deficiência motora, mas muitos acreditam que uma pessoa cega não consegue subir escadas. A pessoa lamenta e transforma algo que não é uma barreira pra mim em uma limitação criada pela atitude dela.”

O que muda quando a gente entende

Ao longo da vida, essas cenas já impactaram sua trajetória. Hoje, Mateus afirma que não se abala da mesma forma.

“Quando você entende que isso diz mais sobre o outro do que sobre você, tudo muda. É um processo. À medida que você se reconhece como uma pessoa pensante, trabalhadora, contribuinte e atuante na sociedade, isso passa a afetar menos.”

Mesmo diante de muitas adversidades, o músico segue de cabeça erguida. Primeiro cego a se formar em Música pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ele afirma que capacitismo e preconceito podem ser obstáculos mais severos do que a própria deficiência.

“Quem pratica esse tipo de atitude é quem realmente perde.”

Fotografia de corpo inteiro de Paulo Mateus, o Mateusinho do Acordeon, em pé, no centro da imagem. Ele é um homem de pele parda, barba curta e usa óculos escuros redondos. Ele sorri e veste o mesmo chapéu de couro nordestino da imagem anterior. Sua camisa é branca com estampa colorida de elementos do sertão e frases como "Eu amo o Nordeste", e ele usa calça bege e sandálias de couro marrom com detalhes coloridos. Mateus está em um ambiente interno, bem iluminado, com piso de concreto. Atrás dele, há uma parede branca com inscrições em preto. À esquerda, um código de barras estilizado e o texto "MUSEU DA IMAGEM E DO SOM CE". À direita, o brasão e o texto "CEARÁ GOVERNO DO ESTADO SECRETARIA DA CULTURA".

O combate ao capacitismo

Prioridade do MPCE

O enfrentamento ao capacitismo é uma frente de atuação do MPCE (Ministério Público do Ceará). Segundo o promotor Hugo Frota Magalhães Porto Neto, da 16ª Promotoria de Justiça de Fortaleza, o objetivo é tornar visíveis as barreiras atitudinais — mostrando quando atitudes e práticas do dia a dia violam direitos e podem gerar responsabilização.

O que pode virar prova

Para caracterizar e comprovar esse tipo de violação, a atuação pode se apoiar em registros objetivos, como:

  • registros de atendimento e comunicações formais
  • imagens e vídeos
  • postagens em redes sociais
  • relatórios técnicos

A intenção é demonstrar que não se trata de episódios isolados, mas de padrões de exclusão.

Quando a falha é da instituição

Mesmo sem preconceito explícito, falhas organizacionais podem caracterizar discriminação. Por exemplo:

  • falta de capacitação
  • ausência de canais de denúncia
  • falta de procedimentos para ajustes razoáveis (adaptações possíveis e necessárias para garantir acesso e participação)

Nesses casos, podem ser adotadas medidas como recomendações, TACs (termos de ajustamento de conduta), inspeções e ações judiciais.

Barreiras “invisíveis” são mais difíceis de provar

O promotor destaca que as barreiras atitudinais têm maior complexidade porque envolvem estereótipos e decisões aparentemente neutras, mas que, na prática, excluem.

“Essas barreiras são mais subjetivas e relacionais. Envolvem estereótipos, vieses, microagressões e decisões que parecem neutras, mas que, na prática, excluem. A legislação atual oferece instrumentos para uma atuação rigorosa.”

Mudança cultural e políticas públicas

Além de responsabilizar casos pontuais, o MPCE também atua para induzir mudanças mais amplas, promovendo:

  • audiências públicas
  • capacitações
  • articulações institucionais
  • produção de guias, campanhas e recomendações para orientar condutas

Em casos de violações recorrentes, como a “recusa velada” de matrícula (quando a negativa acontece sem ser declarada de forma direta) e falhas de comunicação entre profissionais de saúde e pacientes, a instituição avalia indícios de problema sistêmico de gestão e pode combinar medidas extrajudiciais e judiciais, com impacto individual e coletivo.

O que vem por aí: Um mergulho em cinco dimensões

O projeto Direito de Acesso vai contar as realidades a fundo até maio. Ao todo, produziremos 24 reportagens multimídia, 3 podcasts temáticos e 6 vídeos institucionais. Todo esse material cobrirá cinco eixos temáticos fundamentais:

  • 1. Acessibilidade Comunicacional: Informação para todos.
  • 2. Acessibilidade Digital: Inclusão na internet.
  • 3. Acessibilidade Urbana: Cidades sem barreiras.
  • 4. Acessibilidade Educacional e Cultural: Acesso ao saber e à arte.
  • 5. Acessibilidade Atitudinal: Combate ao preconceito.

Acompanhe o projeto Direito de Acesso e faça parte dessa transformação.

Recursos de Apoio e Ferramentas Digitais

Para tornar a navegação mais inclusiva, recomendamos algumas ferramentas que podem apoiar sua experiência digital:

  • VLibras: Um conjunto de ferramentas que traduz conteúdos de texto, áudio e vídeo para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), tornando computadores e celulares acessíveis para pessoas surdas.
  • Guiaderodas: Aplicativo colaborativo onde você pode consultar e avaliar a acessibilidade de locais públicos e estabelecimentos.
  • Be My Eyes: Conecta pessoas cegas ou com baixa visão a voluntários que podem descrever o que a câmera do celular está vendo (rótulos, placas, ambientes).
Banner horizontal do projeto “Direito de Acesso”. À esquerda, fundo azul com o título “Direito de Acesso”, sendo “Direito de” em azul claro e “Acesso” em branco, acompanhado de um traço curvo abaixo da palavra. À direita, em fundo claro, aparecem as identificações institucionais: “Realização: O Veredito”; “Patrocínio: Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (ALECE)”; e “Apoio institucional: OAB Ceará”, com suas respectivas logomarcas.

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