Acessibilidade no Brasil: ‘uma sociedade se mede pela capacidade de incluir’, afirma promotor

Eneas Romero aponta que o maior obstáculo à inclusão não é físico, mas cultural, e está nas barreiras criadas pela própria sociedade
Pessoa em cadeira de rodas dentro de ônibus
Ao contrário do que muitas vezes se imagina, o principal obstáculo à inclusão é atitudinal (Foto: Freepik)

O Brasil tem leis avançadas, mas a inclusão ainda esbarra em barreiras culturais e atitudinais. Para Eneas Romero, o principal obstáculo não é físico, mas a forma como a sociedade foi estruturada. Garantir direitos depende de aplicar a lei e mudar a mentalidade.

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo em relação aos direitos das pessoas com deficiência. Ainda assim, a realidade de milhões de brasileiros segue marcada por exclusão, dificuldades de acesso e invisibilidade.

Para o promotor de Justiça Eneas Romero, titular da Promotoria do Idoso e da Pessoa com Deficiência de Fortaleza, o problema não está na ausência de normas, mas na incapacidade de colocá-las em prática.

Em entrevista ao podcast do projeto Direito de Acesso, ele resume o desafio com uma reflexão direta:

“Uma sociedade é tão desenvolvida quanto a capacidade dela de incluir todas as pessoas e dar oportunidade de ocupar todos os espaços.”

A barreira que não se vê

Ao contrário do que muitas vezes se imagina, o principal obstáculo à inclusão não é o degrau na calçada ou a falta de rampas.

Para o promotor, a maior barreira é atitudinal, está na forma como a sociedade foi estruturada ao longo do tempo.

“Nossas cidades não foram pensadas para a inclusão”, afirma. Segundo ele, o crescimento da longevidade da população evidencia ainda mais esse problema: ambientes urbanos, moradias e serviços públicos continuam baseados em uma lógica que não considera a diversidade de corpos e necessidades.

O resultado é uma exclusão silenciosa, que impede o acesso a direitos básicos como mobilidade, saúde e educação.

Educação: um direito que ainda é negado

Um dos pontos mais críticos destacados por Romero é a negativa de matrícula escolar para crianças com deficiência.

Apesar de a legislação ser clara, a prática ainda ocorre tanto em instituições públicas quanto privadas.

“A escola não pode negar matrícula. Se houver negativa, é um ato ilícito. Discriminação contra a pessoa com deficiência é crime”, destaca.

Segundo ele, justificativas como falta de vaga ou estrutura não têm respaldo legal.

Saúde e a falta de estrutura

Na área da saúde, o cenário também preocupa. Romero aponta o aumento da demanda por atendimento especializado, especialmente no caso de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), e a dificuldade da rede em responder a essa necessidade.

“Hoje não há profissionais suficientes para diagnóstico e acompanhamento”, afirma.

Diante disso, o Ministério Público tem atuado para garantir a ampliação da formação e da oferta de atendimento especializado.

O papel do Ministério Público

O Ministério Público do Estado do Ceará aparece como um dos principais canais de garantia de direitos.

Segundo Romero, a atuação ocorre em duas frentes:

  • Individual, em casos de abandono ou violação direta de direitos
  • Coletiva, com fiscalização de serviços, transportes e espaços públicos

Entre os avanços recentes, ele destaca a recomendação para que pessoas com deficiência permanente não precisem renovar laudos médicos periodicamente.

“Se a deficiência é irreversível, não faz sentido exigir comprovação contínua.”

Onde está a deficiência?

O promotor propõe uma mudança de perspectiva. Inspirado na filósofa Martha Nussbaum, ele afirma que a deficiência não deve ser atribuída ao indivíduo, mas ao ambiente que falha em garantir acesso.

“Se uma pessoa em cadeira de rodas não consegue chegar a um lugar, a deficiência não está nela, está no espaço que não foi preparado para recebê-la.”

Entre a lei e a realidade

A fala de Romero evidencia um ponto central: o Brasil já avançou no campo legal, mas ainda precisa avançar na prática. Mais do que adaptar espaços, o desafio é transformar mentalidades.

Porque inclusão não depende apenas de infraestrutura. Depende de decisão. E, como ele próprio resume, de compromisso com um princípio simples:
ninguém pode ficar de fora.

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