STF vê como remota chance de projeto de anistia prosperar

Corte considera que perdão aprovado pelo Congresso dificilmente seria considerado constitucional
Estátua da Justiça em frente ao STF
Os magistrados relembram a decisão do STF em 2023, que anulou o indulto concedido por Bolsonaro ao ex-deputado Daniel Silveira. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Ministros do STF consideram improvável que prospere no Congresso um projeto de anistia aos envolvidos nos atos golpistas. A Corte já declarou inconstitucional o perdão dado a Daniel Silveira, por entender que houve desvio de finalidade. Para os ministros, anistia antes do julgamento é juridicamente impossível e fere os princípios constitucionais.

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) avaliam que é remota a possibilidade de prosperar um eventual projeto de anistia a envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro — com ou sem o ex-presidente Jair Bolsonaro entre os beneficiados. Segundo um ministro ouvido pelo jornal O Globo, caso o Congresso Nacional aprove esse tipo de perdão, “não dará em nada”, pois dificilmente resistirá ao crivo constitucional da Corte.

Os magistrados relembram a decisão do STF em 2023, que anulou o indulto concedido por Bolsonaro ao ex-deputado Daniel Silveira. Na ocasião, a ministra Rosa Weber, relatora das ações, entendeu que o ex-presidente agiu com desvio de finalidade ao editar o decreto com “o único objetivo de beneficiar um aliado político”. A maioria da Corte considerou que a medida violava os princípios constitucionais da impessoalidade e da moralidade administrativa.

Nos bastidores, ministros afirmam que há pressão no Congresso, principalmente de parlamentares bolsonaristas, para salvar réus pelos atos do 8 de janeiro. Parte da Corte admite discutir um eventual projeto de anistia desde que exclua Bolsonaro, como uma tentativa de “pacificar o país”, mas essa corrente não é majoritária no tribunal.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou que apresentará um texto alternativo ao que tramita na Câmara. A ideia é diferenciar o tratamento legal conforme o grau de participação nos atos — por exemplo, distinguir quem financiou e quem apenas esteve na Praça dos Três Poderes sem praticar vandalismo. Alcolumbre se posiciona contra anistiar o ex-presidente da República.

O fator Tarcísio

Nos últimos dias, o tema voltou a ganhar força com a articulação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), apontado como possível nome da oposição para 2026. Tarcísio chegou a discutir o assunto por telefone com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tentando costurar apoio entre bolsonaristas e setores do Congresso.

Bolsonaro está inelegível por ataques ao sistema eletrônico de votação e é réu no STF por suspeita de liderar uma tentativa de golpe de Estado para se manter no poder após a derrota eleitoral. O julgamento da chamada “trama golpista” começou nesta semana.

Durante a sessão de abertura, o ministro Alexandre de Moraes fez um duro discurso: “A História nos ensina que a impunidade, a omissão e a covardia não são opções para a pacificação. A pacificação do país depende do respeito à Constituição, da aplicação das leis e do fortalecimento das instituições”.

O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, também se manifestou sobre o tema. Em evento recente, afirmou: “Do ponto de vista jurídico, anistia antes de julgamento é uma impossibilidade, não existe. Não houve julgamento e nem houve condenação”. Para ele, qualquer discussão de anistia antes da conclusão dos processos é precipitada.

Ainda segundo Barroso, o objetivo dos julgamentos é “encerrar ciclos de atraso” e combater a ideia de que “quem perde tenta dar um golpe e não precisa respeitar as regras do jogo”.

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