A escalada do conflito envolvendo o Irã reacendeu a volatilidade nos mercados globais e colocou o petróleo no centro das atenções. Embora a relação comercial direta entre o Ceará e o Irã, e mesmo com países do Oriente Médio, represente cerca de 0,5% da pauta estadual, os impactos indiretos podem ser sentidos com rapidez, especialmente por meio do preço dos combustíveis, do frete e das passagens aéreas.
O principal ponto de tensão é o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. Com o bloqueio e aumento do risco de guerra na região, o barril já opera acima de US$ 80, e seguradoras marítimas ampliaram as zonas classificadas como de alto risco, elevando os custos de transporte.
Combustível: o primeiro reflexo
Segundo especialistas do setor de petróleo e gás, se o barril permanecer nesse patamar ou subir por mais de 30 dias, a Petrobras tende a reajustar os preços nas refinarias. O impacto atinge gasolina, diesel e GLP (gás de cozinha).
Como o Brasil ainda importa parte dos derivados e do próprio petróleo, importadoras sentem o efeito quase imediato. No Ceará, onde a logística depende fortemente do transporte rodoviário e marítimo, a alta do diesel pode pressionar fretes e, em cadeia, alimentos e produtos industrializados.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a escala do conflito será determinante para medir o impacto, mas ressaltou que a economia brasileira está “bem posicionada”. Ainda assim, analistas ouvidos por veículos nacionais apontam que um choque prolongado pode pressionar inflação e dificultar cortes na taxa básica de juros.
Portos e frete internacional
O Ceará não possui rota direta pelo Estreito de Ormuz, e o Complexo do Pecém informou que as operações seguem normais. Porém, o impacto indireto ocorre pelo custo global do frete e pelo chamado “war risk surcharge” (sobretaxa de risco de guerra), já aplicado a cargas destinadas ou provenientes do Golfo Pérsico.
Com seguradoras ampliando áreas de alto risco e empresas redirecionando rotas, o transporte marítimo internacional tende a encarecer. Mesmo cargas que não tenham origem no Oriente Médio podem sofrer reajustes devido à reorganização das rotas globais.
Aviação e passagens
Dubai é um dos principais hubs internacionais. Com a reconfiguração de rotas e eventual redução de frequências, voos com conexão na região podem sofrer alterações.
Especialistas apontam que o impacto não se dá necessariamente por aumento imediato das tarifas, mas pela redução de promoções e tarifas mais agressivas. Como o querosene de aviação é derivado de petróleo, alta sustentada no barril também pressiona o setor aéreo, inclusive nas rotas domésticas.
Selic, inflação e ano eleitoral
Fato é que um choque prolongado pode afetar o crescimento do PIB em 2026, ano eleitoral, e dificultar a redução da Selic, atualmente em patamar elevado.
A lógica é: petróleo mais caro – combustíveis mais caros – inflação pressionada – juros mantidos altos por mais tempo. Isso impacta crédito, consumo e investimentos.
E o Ceará?
Para o Ceará, os efeitos tendem a ser mais econômicos do que comerciais diretos:
• possível aumento no preço dos combustíveis;
• fretes mais caros, pressionando preços de mercadorias;
• impacto em passagens aéreas e logística internacional;
• volatilidade no câmbio, afetando importações e turismo.
Se o conflito for contido e o preço do petróleo recuar nas próximas semanas, o impacto pode ser limitado. Mas, se houver bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz ou ampliação das hostilidades, o reflexo tende a ser sentido no bolso do consumidor cearense, principalmente no posto de gasolina, no gás de cozinha e nas passagens aéreas.