Tecnologias assistivas e inclusão: mobilidade e autonomia para pessoas com deficiência visual

O uso de ferramentas digitais tem ampliado ainda mais a autonomia de pessoas com deficiência visual no dia a dia
Colagem de fotos mostra Janio Ferreira Martins caminhando na rua e cantando sobre um palco com uma banda em um show
As ferramentas assistivas permitiram a Janio Ferreira Martins uma maior inclusão social, ampliando as possibilidades de comunicação, acesso à informação e participação ativa na sociedade. Foto: Arquivo pessoal

Janio Ferreira Martins, artista com deficiência visual, representa como a tecnologia assistiva pode ampliar autonomia, mobilidade e inclusão. Mas o uso de bengalas inteligentes, aplicativos, leitores de tela e ferramentas de apoio fazem a diferença no cotidiano de pessoas cegas. O papel do poder público cearense no incentivo a políticas de acessibilidade, inovação e inclusão no mercado de trabalho também é essencial.

Janio Ferreira Martins desperta com a luz mansa do amanhecer, como quem acompanha o ritmo silencioso do mundo. Aposentado apenas no papel, ele é ator, compositor e artista de muitas formas — um criador que se reinventa a cada dia. Integra o grupo de teatro Olho Mágico, empresta sua sensibilidade à banda Visão Musical e também faz parte da Academia de Letras e Artes da Sociedade de Assistência aos Cegos (Alasac).

Antes que a cidade se reconheça em seu próprio movimento, ele já está de pé. Entre gestos simples e rotinas domésticas, prepara-se com serenidade para mais uma jornada. Segue então em sua caminhada até o Instituto dos Cegos, onde, mais do que reabilitar-se, reafirma diariamente sua autonomia e talento.

Foi perdendo a visão aos poucos, em razão da degeneração macular — um processo gradual que transformou sua rotina, mas não diminuiu a vontade de seguir ativo. Em mãos, sua bengala telescópica com trava — companheira inseparável — guia seus passos pelas ruas, ajudando-o a perceber o mundo ao seu redor por meio do toque e da atenção aos detalhes que muitos sequer notam.

O trajeto, que para alguns poderia parecer simples, é resultado de prática, confiança e adaptação. “Foi com ela que aprendi a caminhar sozinho, a reconhecer as calçadas, os degraus e a identificar obstáculos”, reforça.

Cada passo carrega independência, mas também revela os desafios diários enfrentados por pessoas com deficiência visual na busca por mobilidade segura.

Nos últimos anos, no entanto, essa realidade tem sido transformada pelo avanço das tecnologias assistivas. A tradicional bengala, como a de Janio, evoluiu e hoje já conta com versões inteligentes, equipadas com sensores capazes de detectar barreiras acima da linha da cintura e emitir alertas sonoros ou vibratórios.

Além disso, novas tecnologias vestíveis vêm ganhando espaço. Óculos inteligentes com câmeras e inteligência artificial conseguem interpretar o ambiente em tempo real, descrevendo objetos, reconhecendo placas e até auxiliando na identificação de pessoas.

Aplicativos com GPS acessível também permitem que usuários tracem rotas e recebam orientações por voz, tornando possível explorar novos caminhos com maior liberdade.

Mais autonomia

Para além da mobilidade, o uso de ferramentas digitais tem ampliado ainda mais a autonomia de pessoas com deficiência visual no dia a dia. Janio, por exemplo, utiliza recursos como o TalkBack, que lê em voz alta as informações exibidas no celular, permitindo a navegação por meio de gestos, e o Be My Eyes, aplicativo que conecta usuários a voluntários por chamada de vídeo para auxiliar em tarefas como leitura de rótulos, identificação de objetos e reconhecimento de ambientes.

“É muito simples. Quando eu chego em algum local que ainda não conheço, eu faço uma foto panorâmica e a ferramenta descreve todo aquele ambiente pra mim. E quando estou sozinho em casa, peço ajuda ao voluntário”, relata.

Mesmo adepto às novas tecnologias, Janio também é um defensor do sistema braille e tem na leitura seu principal hobby. “Quando eu enxergava até 2016, não arranjava tempo para ler. Vivia para trabalhar. Hoje, depois que perdi a visão, leio livros que nem letra têm”, relata.

As ferramentas assistivas permitem maior inclusão social, ampliando as possibilidades de comunicação, acesso à informação e participação ativa na sociedade.

O papel do poder público

O Ceará tem avançado na promoção da tecnologia assistiva por meio da integração entre políticas públicas, pesquisa e inovação. A Secretaria dos Direitos Humanos (Sedih) atua no fortalecimento da inclusão, incentivando recursos como audiodescrição e interpretação em Libras para ampliar o acesso de pessoas com deficiência aos serviços e eventos públicos. Também há incentivo a projetos inovadores, como no edital “Mulheres Empreendedoras”.

Na área da saúde, o Estado conta com uma rede estruturada que oferece tecnologias assistivas, incluindo órteses, próteses e equipamentos de locomoção e suporte vital. O acesso ocorre de forma regionalizada, com encaminhamento desde a atenção primária até centros especializados, onde são feitas avaliação e acompanhamento.

Atualmente, há 17 Centros Especializados em Reabilitação com equipes multiprofissionais responsáveis pela concessão e manutenção desses recursos, seguindo critérios técnicos e priorização conforme a necessidade dos pacientes.

No mercado de trabalho, as tecnologias assistivas vêm sendo cada vez mais incorporadas, favorecendo a inclusão de pessoas com deficiência. Recursos como leitores de tela permitem maior autonomia, ajudando a superar barreiras e possibilitando a execução de tarefas de forma mais independente.

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