Deficiência invisível: os desafios silenciosos enfrentados por pessoas autistas e suas famílias

Mateus, de 12 anos, sorrindo em local de lazer
Mateus, de 12 anos, teve o diagnóstico de autismo quando tinha apenas dois anos de idade (Foto: Arquivo pessoal

Deficiências invisíveis, como o TEA, geram desafios diários que muitas vezes não são compreendidos pela sociedade. A história de Juliana e Mateus mostra o peso da rotina de terapias, do preconceito e da resistência no acesso à inclusão escolar. Especialistas alertam que reconhecer essas necessidades é essencial para garantir direitos, combater julgamentos e promover inclusão real.

Para muitas famílias, a deficiência invisível representa uma batalha diária travada longe dos olhos da sociedade. Diferente das limitações físicas aparentes, condições como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda são frequentemente incompreendidas, o que gera julgamentos, preconceitos e dificuldades no acesso a direitos básicos.

A advogada Juliana Ribeiro, de 44 anos, conhece essa realidade de perto. Mãe atípica de Mateus, de 12 anos, ela relata que o diagnóstico de autismo veio quando o filho tinha apenas dois anos de idade. O principal sinal foi a dificuldade de interação com crianças da mesma faixa etária. “O Mateus gostava apenas de adultos, conversava apenas com eles”, conta.

Desde então, a rotina da família passou a ser marcada por uma intensa jornada de cuidados. Juliana divide o tempo entre a profissão e o acompanhamento do filho nas terapias realizadas diariamente no contraturno escolar.

“Ele estuda pela manhã e todas as tardes, de segunda a sexta, tem terapia. Faz terapia ocupacional, psicologia, pedagogia, fisioterapia, fonoaudiologia e treino. É extremamente cansativo para todos que vivem essa rotina”, relata.

Apesar dos avanços na conscientização sobre o autismo, ela afirma que o preconceito ainda é uma realidade constante, especialmente porque o transtorno muitas vezes não apresenta características visíveis.

“O autismo ainda é invisível, porque ele anda e fala bem. Porém, não consegue esperar, tem muita dificuldade com barulho, cheiros e luzes e, muitas vezes, tem crises por esses motivos. Acaba sendo julgado com muitos olhares nesses momentos”, desabafa.

A mãe também chama atenção para os desafios enfrentados na garantia de direitos, principalmente na área da educação. Segundo ela, embora a inclusão escolar seja assegurada por lei, muitas famílias ainda enfrentam resistência das instituições de ensino.

“A inclusão escolar é um direito de todos, mas nossos filhos são vistos como um peso para as escolas, por conta das necessidades específicas e particulares de cada criança”, afirma Juliana.

Mateus, de 12 anos, em exposição de arte
A mãe de Mateus chama atenção para os desafios enfrentados na garantia de direitos, principalmente na área da educação (Foto: Arquivo pessoal)

Olhar profissional

A psicóloga Sarah Menezes explica que a deficiência invisível é toda condição que gera limitações reais na vida da pessoa, mas que não pode ser identificada apenas pela aparência física.

“São situações em que, à primeira vista, ninguém percebe que aquela pessoa enfrenta barreiras diárias para se comunicar, se organizar, se regular emocionalmente, aprender, interagir socialmente ou até mesmo permanecer em determinados ambientes”, afirma.

Segundo a especialista, o TEA é um dos exemplos mais conhecidos de deficiência invisível, justamente porque muitas crianças, jovens e adultos autistas não possuem características físicas que evidenciem a condição. Ela destaca ainda que transtornos de aprendizagem, TDAH e deficiências intelectuais também fazem parte desse grupo.

Na prática clínica, Sarah afirma que é comum atender crianças que “aparentam estar bem”, mas chegam emocionalmente esgotadas após tentarem se adaptar a ambientes que não consideram suas necessidades.

“Muitas chegam exaustas, irritadas ou em crise, porque passaram o dia inteiro tentando se adaptar a um ambiente que não foi pensado para elas. Para quem acompanha de perto, sabe que essas pessoas vivem em constante estado de esforço e alerta”, explica.

Desconhecimento

Sarah Menezes reforça que a legislação brasileira garante direitos importantes às pessoas com deficiência invisível, como educação inclusiva, acessibilidade, saúde, prioridade em atendimentos e adaptações necessárias para participação social plena, por meio da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015). No entanto, a psicóloga destaca que o desconhecimento ainda dificulta a efetivação desses direitos.

“Como a deficiência não é visível, essas pessoas e suas famílias vivem em constante necessidade de provar e justificar que precisam desses direitos. É comum escutar frases como ‘ela é normal’ ou ‘isso é só falta de limite’”, relata.

A especialista ressalta ainda que a sociedade ainda associa deficiência apenas ao que é físico e perceptível aos olhos, ignorando impactos importantes nas funções executivas, no processamento sensorial, na comunicação e na regulação emocional.

“Muitas famílias relatam constrangimento ao utilizar fila preferencial ou solicitar adaptações escolares, porque escutam comentários como ‘mas ele não tem nada’. Isso gera um desgaste enorme”, afirma.

Para Sarah, esse olhar limitado contribui diretamente para a exclusão social e emocional das pessoas autistas.

“Quando a sociedade só reconhece o que é visível, a pessoa autista passa a ser julgada como mal-educada, desobediente ou mimada, quando na verdade está enfrentando dificuldades neurológicas reais”, explica.

Ela cita situações comuns, como crises sensoriais em ambientes movimentados, que costumam ser interpretadas de forma equivocada por quem está ao redor.

“A criança autista pode entrar em sobrecarga sensorial em um shopping, mas as pessoas enxergam apenas uma birra. Esse olhar equivocado gera exclusão, culpa e desgaste emocional”, conclui.

Histórias como a de Juliana e os relatos observados na prática clínica mostram que discutir deficiência invisível é essencial para ampliar a empatia, combater preconceitos e garantir inclusão verdadeira. Mais do que enxergar o diagnóstico, é preciso reconhecer as necessidades e respeitar as vivências dessas pessoas e de suas famílias.

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