A violência voltou ao topo das preocupações da população brasileira e se consolida como tema central no debate político nacional. Segundo a mais recente pesquisa Genial/Quaest, 38% dos brasileiros apontam a segurança pública como o maior problema do país — um salto expressivo em relação aos 19% registrados em julho e aos 10% em dezembro de 2023. O crescimento acentuado da percepção de insegurança ocorre de forma generalizada, atingindo todas as regiões e diversos grupos sociais, mas é mais intenso entre nordestinos (41%) e evangélicos (44%).
Esse cenário de inquietação se cruza com outro dado revelador da pesquisa “A Cara da Democracia”, conduzida por um consórcio de universidades públicas: os brasileiros estão divididos sobre quem deve ser o responsável pela segurança pública. Para 25%, a atribuição é dos governos estaduais; 24,5% atribuem a responsabilidade ao governo federal e 20,4% apontam as prefeituras. A desorganização da percepção institucional mostra uma lacuna de liderança e coordenação, que pode dificultar a cobrança por soluções efetivas.
A indefinição institucional se agrava com o ceticismo: 11,6% acham que cada cidadão deve cuidar da própria segurança, e 6,5% defendem que empresas privadas assumam esse papel. A descrença nas estruturas formais pode estar relacionada ao sentimento de abandono por parte do Estado, especialmente em comunidades mais afetadas pela criminalidade.
Essa insatisfação crescente coloca pressão sobre o governo Lula, que viu sua aprovação estagnar em 35% após três altas consecutivas. O avanço da violência ameaça comprometer o capital político do presidente, principalmente em sua base histórica no Nordeste, onde o temor com o crime cresceu acentuadamente.
Discussões políticas
Nos bastidores de Brasília, a pauta da segurança pública já provoca embates. A megaoperação policial no Rio de Janeiro que resultou em 121 mortes, alertou a classe política para a urgência na busca de soluções. O governo federal apresentou uma proposta para o combate ao crime organizado. No entanto, a relatoria do texto na Câmara foi entregue ao deputado Guilherme Derrite (PP-SP), secretário de Segurança Pública de São Paulo licenciado e ligado a uma linha mais dura de atuação. A escolha gerou desconforto no Planalto, sobretudo após o parlamentar modificar trechos da proposta original, evidenciando a disputa por protagonismo na condução da política de segurança.
O que a pesquisa “A Cara da Democracia” deixa claro é que a segurança é uma agenda historicamente favorável à direita e à extrema direita, especialmente em contextos como o brasileiro, marcados por um viés punitivista. A defesa da redução da maioridade penal, por exemplo, é apoiada por 64,5% dos entrevistados.
Com o aumento da percepção de insegurança e a fragmentação institucional sobre responsabilidades, partidos e candidatos já se mobilizam para ocupar o vácuo com discursos duros, propostas de endurecimento das penas, reforço das polícias e uso de tecnologias de vigilância. Especialistas, no entanto, alertam que a ênfase em ações repressivas isoladas tende a ser insuficiente, e defendem políticas integradas que incluam prevenção, educação, oportunidades econômicas e fortalecimento da cidadania.