Ministério Público mira crime organizado, compra de apoio e fake news no ano eleitoral

Atuação do MPCE será voltada tanto para irregularidades tradicionais quanto para ameaças mais sofisticadas e perigosas, como a influência de facções criminosas
Eleitores durante dia de votação nas eleições 2024
Atuação do MPCE será para impedir que o medo, a coação e o poder financeiro contaminem a vontade do eleitor e distorçam a disputa democrática. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

O MPCE vai intensificar a fiscalização de facções, fake news e abuso de poder nas eleições. Segundo o promotor Igor Pinheiro, o crime organizado tenta influenciar o voto por medo e coação. O foco será impedir que dinheiro, máquina pública ou grupos criminosos distorçam a vontade do eleitor.

O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) definiu como uma das prioridades para as eleições deste ano o enfrentamento à infiltração do crime organizado na política e a repressão a abusos que possam comprometer a lisura do processo eleitoral.

Em entrevista ao podcast O Veredito, o promotor de Justiça Igor Pinheiro, coordenador do Centro de Apoio Operacional Eleitoral (Caopel), afirmou que a atuação do Ministério Público será voltada tanto para irregularidades tradicionais, como abuso de poder econômico e uso da máquina pública, quanto para ameaças mais sofisticadas e perigosas, como a influência de facções criminosas sobre comunidades e candidaturas.

Segundo ele, a atuação do MPCE será para impedir que o medo, a coação e o poder financeiro contaminem a vontade do eleitor e distorçam a disputa democrática.

Facções e domínio territorial

Um dos pontos mais sensíveis, de acordo com o promotor, é o uso do domínio territorial por organizações criminosas para interferir diretamente no processo eleitoral.

A preocupação do Ministério Público é com situações em que facções ou milícias passem a atuar como poder paralelo dentro de comunidades, proibindo a entrada de determinados candidatos, impondo apoios e constrangendo moradores a aderirem visualmente a campanhas, inclusive com a exibição de material de propaganda em residências.

Para enfrentar esse tipo de prática, o MP atua em articulação com estruturas de inteligência, como o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) e núcleos especializados de investigação. A estratégia, segundo Igor Pinheiro, inclui monitoramento discreto e produção de prova qualificada para identificar eventual vínculo entre candidaturas e organizações criminosas.

A consequência, se essa relação for comprovada, pode ser severa: cassação de registro ou de mandato, além de responsabilização criminal.

Medo como instrumento de manipulação

Na avaliação do coordenador do Caopel, o crime organizado representa hoje uma ameaça direta ao Estado de Direito justamente porque tenta capturar a política pelo medo.

Quando o eleitor deixa de votar livremente e passa a agir sob intimidação, o que está em risco não é apenas a regularidade do pleito, mas a própria legitimidade da representação política.

Por isso, o Ministério Público reforça a necessidade de denúncia. O cidadão pode recorrer à Ouvidoria do MP, ao sistema Pardal e também aos canais institucionais do Caopel para encaminhar fotos, vídeos e relatos de irregularidades.

A promessa é de preservação da identidade do denunciante, num esforço para reduzir o receio de represálias.

Assistencialismo e abuso de poder econômico

Além da influência de facções, o Ministério Público também acende o alerta para práticas mais antigas, mas ainda recorrentes, como a chamada “caridade eleitoreira”.

Segundo Igor Pinheiro, trata-se de um assistencialismo oportunista, em que agentes políticos distribuem bens ou benefícios em ano eleitoral com objetivo de conquistar apoio político. Cestas básicas, dentaduras, fardamentos e outros itens, quando entregues com finalidade eleitoral, podem caracterizar abuso de poder econômico.

A preocupação do MP é distinguir políticas públicas legítimas de ações eleitoreiras disfarçadas de ajuda social.

Fake news e narrativas criminosas

Outro eixo de fiscalização envolve a desinformação.

De acordo com o promotor, o uso de fake news, montagens e acusações falsas para associar adversários a crimes ou facções criminosas também será alvo de atenção especial. Em tempos de circulação rápida de conteúdo nas redes, esse tipo de estratégia pode alterar artificialmente a percepção do eleitor e contaminar o debate público.

A avaliação é de que disparos coordenados de mentiras, quando comprovados, podem gerar consequências eleitorais relevantes, inclusive com repercussão sobre o mandato.

Uso da máquina pública

O Ministério Público também promete vigilância sobre o abuso de poder político.

Entram nesse radar situações como uso de veículos oficiais em atos de campanha, pressão sobre servidores comissionados para participação em mobilizações políticas e aproveitamento da estrutura administrativa em benefício eleitoral.

A intenção, segundo Igor Pinheiro, é impedir que a desigualdade de poder entre quem está no cargo e quem disputa a eleição comprometa a igualdade de condições entre os candidatos.

Sensação de impunidade

Ao falar sobre os desafios da fiscalização, o promotor também chamou atenção para um problema estrutural: a percepção de que a legislação eleitoral brasileira ainda é pouco eficaz para inibir condutas ilícitas.

Na avaliação dele, muitos crimes eleitorais admitem acordos ou soluções que evitam punições mais duras, o que alimenta a sensação de que, em certos casos, o ilícito compensa.

Esse cenário, segundo o coordenador do Caopel, exige não apenas atuação técnica e firme das instituições, mas também presença mais efetiva do Estado em territórios vulneráveis, para evitar que o vazio de poder seja ocupado por estruturas criminosas.

“O combate ao crime organizado se faz com coragem e competência técnica, mas também com uma revisão de como o Estado está em todo o contexto territorial”, resumiu.

Em um ano eleitoral, o Ministério Público destaca que o foco de suas ações não estará apenas no voto, mas em tudo aquilo que tenta deformar, pressionar ou comprar a vontade do eleitor antes que ele chegue à urna.

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