Avanço de data centers e cidades conectadas no Ceará exige regra clara e planejamento urbano

Debate sobre inovação urbana ganha força em momento em que o estado tenta transformar conectividade, energia e segurança jurídica em ativo econômico
Vista aérea da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Ceará
Data center da ByteDance, dona do TikTok, será construído na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) do Ceará. Foto: Divulgação/Governo do Estado

O Ceará tenta se consolidar como polo de infraestrutura digital, com avanço de data centers e cidades conectadas. Mas esse crescimento exige regras claras sobre energia, licenciamento, uso do solo e segurança jurídica. Para Machidovel Trigueiro Filho, a inovação urbana só vira desenvolvimento real quando conectividade e energia são acompanhadas de boa governança.

A transformação digital das cidades deixou de ser um tema restrito à tecnologia e passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico no debate sobre desenvolvimento, investimento e planejamento urbano. No Ceará, esse movimento ganha relevo num momento em que o estado busca se consolidar como polo de infraestrutura digital, impulsionado pela presença de cabos submarinos, pela expansão da conectividade e pelo interesse crescente em projetos ligados a data centers, energia e cidades inteligentes.

Esse novo cenário, porém, traz uma pergunta central: o avanço tecnológico está sendo acompanhado por um ambiente jurídico e regulatório capaz de sustentar esse crescimento de forma ordenada, segura e socialmente útil?

A discussão será um dos focos do seminário “Marcos Legais da Inovação Urbana: Do Centro de Dados à Cidade Conectada”, promovido pela OAB Ceará e pela ESA-CE nesta terça-feira (28). Mas o tema, por si só, extrapola o evento e aponta para um debate mais amplo: o da necessidade de construir regras, contratos, modelos de governança e instrumentos de planejamento para uma cidade cada vez mais dependente de infraestrutura digital.

Inovação urbana já não é apenas discurso de modernização

Quando se fala em cidade conectada, o imaginário costuma se voltar para sensores, semáforos inteligentes, internet rápida e soluções digitais para mobilidade e serviços. Mas por trás disso há uma base física, energética, contratual e regulatória robusta: centros de dados, redes de transmissão, uso do solo, licenciamento ambiental, parcerias público-privadas, proteção de dados e segurança jurídica para investimentos de longo prazo.

Na prática, a cidade inteligente não começa no aplicativo. Ela começa na infraestrutura.

É justamente essa leitura que o presidente da Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB-CE, Machidovel Trigueiro Filho, também secretário de Ciência e Tecnologia de Caucaia, destaca ao defender a centralidade do tema.

“Para a advocacia, esse cenário inaugura mercados de alta densidade técnica que superam o contencioso tradicional, abrindo frentes na estruturação de contratos complexos de energia (PPAs), no licenciamento ambiental e imobiliário de grandes centros de dados, na governança regulatória de ZPEs e na modelagem de Parcerias Público-Privadas para cidades inteligentes. O evento, portanto, prepara o profissional para atuar na fronteira da competitividade global, transformando a segurança jurídica em ativo fundamental que permite ao Ceará converter conectividade e energia em desenvolvimento real”, afirma.

Data centers entram no centro da agenda

Entre os temas que mais ganharam força nesse debate está a expansão dos data centers, que passaram a ser vistos como infraestrutura estratégica para a economia digital. Esses empreendimentos concentram armazenamento, processamento e circulação de dados em larga escala e dependem de fatores como disponibilidade energética, conectividade internacional, estabilidade regulatória e ambiente institucional confiável.

No caso do Ceará, a combinação entre posição geográfica, cabos submarinos, potencial energético e estrutura logística faz o estado aparecer com frequência no radar de investimentos voltados à nova economia digital.

Mas esse avanço também impõe desafios. Data centers exigem alto consumo de energia, demandam licenciamento ambiental e urbanístico, pressionam a infraestrutura local e dependem de contratos complexos e previsibilidade regulatória. Sem isso, a promessa de desenvolvimento pode ficar comprometida ou produzir crescimento descoordenado.

O desafio não é só atrair investimento, mas organizá-lo

A atração de grandes empreendimentos tecnológicos costuma vir acompanhada de um discurso otimista sobre modernização, inovação e geração de empregos. O problema é que, sem regras claras, o processo pode esbarrar em insegurança jurídica, conflitos ambientais, dúvidas sobre uso do solo e entraves administrativos.

Nesse ponto, a discussão sobre marcos legais da inovação urbana ganha densidade. Não se trata apenas de saber se o estado ou o município conseguem atrair investimento, mas de avaliar se há arcabouço institucional suficiente para organizar esse investimento sem improviso.

Esse debate envolve, por exemplo:

  • licenciamento ambiental e imobiliário;
  • contratos de fornecimento de energia;
  • proteção de dados e conectividade;
  • regulação de zonas de processamento de exportação;
  • e modelos de PPP para implantação de soluções urbanas inteligentes.

Cidade conectada também precisa responder ao interesse público

Outro aspecto importante é que a inovação urbana não pode ser lida apenas como agenda empresarial ou tecnológica. A expansão da infraestrutura digital também precisa ser observada sob a ótica do interesse público: quem se beneficia da cidade conectada, como esses investimentos alteram a dinâmica urbana e de que forma a transformação digital dialoga com mobilidade, inclusão, sustentabilidade e desigualdade territorial.

Em outras palavras, o debate sobre centros de dados e conectividade não deve ficar restrito aos grandes projetos. Ele precisa alcançar também a cidade real, aquela em que a inovação só se justifica se melhorar serviços, ampliar acesso e reduzir assimetrias.

Ceará tenta transformar conectividade em política de desenvolvimento

Ao colocar o tema em pauta, a OAB-CE sinaliza que a infraestrutura digital passou a ocupar posição relevante também no campo jurídico. A discussão interessa não apenas a especialistas em tecnologia, mas a profissionais de direito público, ambiental, urbanístico, regulatório, concorrencial e contratual.

O entendimento é de que o Ceará tenta converter sua posição estratégica em política de desenvolvimento. Para isso, no entanto, não basta ter cabo submarino, energia ou discurso de inovação. É preciso ter regra clara, capacidade institucional e planejamento para garantir

É essa a disputa de fundo que começa a aparecer com mais nitidez: a do lugar do estado e das cidades no mapa da economia digital.

No fim, a cidade conectada só deixará de ser promessa quando conseguir unir três coisas ao mesmo tempo: infraestrutura, governança e finalidade pública.

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