Por que Eduardo Bolsonaro segue recebendo salário de deputado mesmo vivendo nos EUA

Afastado do país, parlamentar recebe remuneração em meio a debates sobre a legalidade e a finalidade de sua viagem
Reprodução de vídeo de Eduardo Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro foi aos EUA com o objetivo de atuar como lobista contra o que ele considera "abusos do judiciário brasileiro". Foto: RS/Fotos Públicas

O deputado federal Eduardo Bolsonaro continua recebendo salário mesmo nos Estados Unidos, após o fim de sua licença em julho. A remuneração é permitida pelas regras da Câmara, mas suas faltas a partir de agosto deveriam ser controladas e gerar descontos. No entanto, o pagamento de seu salário foi bloqueado por ordem do STF devido a acusações de obstrução de Justiça.

A permanência do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, enquanto continua a receber seu salário de parlamentar, gerou um intenso debate público e questionamentos legais.

Em julho, o gabinete do parlamentar recebeu R$ 123 mil para pagar os 8 funcionários, além do deputado. Como sua licença terminou no dia 20, ele recebeu R$ 17 mil brutos, valor que, após os descontos, ficou em cerca de R$ 13,3 mil.

A situação, complexa do ponto de vista jurídico, envolve regulamentações da Câmara dos Deputados e a interpretação das regras sobre licenças e presença em sessões.

O Contexto da Viagem

Eduardo Bolsonaro solicitou licença do mandato em março para uma viagem de 120 dias, com o objetivo declarado de atuar como lobista nos Estados Unidos contra o que ele e seus aliados consideram “abusos do judiciário brasileiro” e para buscar sanções contra autoridades do Brasil. Durante o período de licença, ele não recebeu salário. No entanto, com o fim licença em 20 de julho, o deputado passou a receber uma remuneração proporcional, mesmo permanecendo fora do país.

A retomada do pagamento do salário de deputado ocorre após a conclusão da licença, com o argumento de que o Congresso estava em recesso até 1º de agosto. A partir dessa data, as faltas de Eduardo Bolsonaro em sessões deliberativas da Câmara passaram a ser contabilizadas.

A Perspectiva Jurídica e as Regras da Câmara

A justificativa para o recebimento do salário, mesmo com o deputado ausente, reside no fato de que o pagamento é vinculado à sua condição de parlamentar eleito, e não diretamente à sua presença física em todas as sessões. As regras da Câmara dos Deputados estabelecem que a ausência injustificada em sessões deliberativas pode levar a descontos na remuneração.

Contudo, a legislação também prevê o direito a licenças, que podem ser com ou sem remuneração. A questão crucial, neste caso, é que a licença de Eduardo Bolsonaro se encerrou e, a partir de então, suas faltas na Câmara deveriam ser justificadas para evitar descontos. A apuração desses descontos é de responsabilidade da própria Mesa Diretora da Câmara.

Além disso, a Constituição Federal estabelece que um deputado pode perder o mandato se a sua ausência injustificada for superior a um terço das sessões de cada período legislativo. Para manter o cargo, portanto, é preciso um controle rigoroso das faltas.

O Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a apurar a ausência do deputado em sessões antes da licença, apontando que deveria haver descontos no salário dele, o que não ocorreu. O caso foi encaminhado para a própria Câmara dos Deputados.

O Bloqueio Judicial e as Novas Acusações

A situação se tornou ainda mais complexa com a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de determinar o bloqueio dos salários, bens e contas bancárias do parlamentar. A medida foi motivada pela atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUA, que, segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), seria uma tentativa de incitar autoridades estrangeiras contra autoridades brasileiras, o que configuraria um ato de obstrução de Justiça.

Com a decisão do STF, o salário de deputado de Eduardo Bolsonaro, embora seja devido, não pode ser acessado por ele diretamente.

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