A plataforma Roblox implementou, neste mês, uma mudança nas regras de comunicação que restringe o chat para usuários menores de idade, com verificação de idade e organização das conversas por faixas etárias. A decisão provocou um protesto virtual dentro do próprio jogo e, em paralelo, o influenciador Felca afirmou ter recebido mensagens agressivas e ameaças nas redes sociais, após ser apontado — sem relação direta com a medida — como responsável por “tirar o chat” das crianças. 
A forma como o protesto se deu, contudo, levou muitos pais a desconfiarem de que o ato foi realizado por adultos se passando por crianças, exatamente a suspeita que levou o Roblox a aplicar a medida.
O que mudou no Roblox
Em comunicado institucional publicado em 7 de janeiro, o Roblox afirmou que passou a exigir verificação de idade (incluindo estimativa facial) para acesso a funções de chat, com o objetivo de oferecer “comunicação adequada à idade” e limitar a interação entre adultos e crianças, com regras específicas para menores (como exigência de consentimento dos responsáveis em faixas etárias mais baixas).
A discussão ganhou escala internacional também por críticas ao modelo de verificação e por relatos de falhas na classificação etária, levantando debate sobre efetividade e privacidade desse tipo de tecnologia. 
Como foi o protesto no “mundo virtual”
Com a restrição, jogadores organizaram manifestações dentro de experiências populares da plataforma, reunindo avatares, cartazes e ações coordenadas. Uma das cenas que viralizou foi o uso da música “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil) como trilha de protesto, em referência ao “cale-se”, associando a mudança a uma forma de “silenciamento” no jogo. 
Felca relata ataques e ameaças após mudança
No meio da reação, Felca disse que passou a receber mensagens hostis e ameaças, atribuídas a contas que se apresentam como de crianças, após circular a ideia de que ele teria influenciado a decisão. A repercussão ocorre porque o influenciador ganhou visibilidade ao tratar do tema da proteção de menores em ambientes digitais, mas ele não tem ligação direta com a política implementada pela plataforma.
Proteção de crianças e adolescentes: o que diz a lei
No Brasil, o debate se conecta a um conjunto de normas que prioriza a proteção integral:
- A Constituição estabelece que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, com prioridade absoluta, os direitos de crianças e adolescentes, protegendo-os de negligência, exploração e violência.
- O ECA reforça a lógica da prioridade absoluta e aponta o dever coletivo de prevenir violações de direitos de crianças e adolescentes.
- A LGPD determina que o tratamento de dados pessoais de crianças e adolescentes deve ocorrer no melhor interesse desses titulares — ponto que costuma entrar na discussão quando plataformas adotam mecanismos de verificação de idade.
- A lei que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (bullying) enquadra práticas de intimidação e humilhação repetitivas, tema que pode dialogar com campanhas de ataques coordenados em ambientes online.
No campo judicial, decisões no Brasil têm reafirmado que, diante de conteúdo ofensivo envolvendo menores, o sistema protetivo do ECA pode prevalecer em análises sobre deveres de cuidado e remoção de conteúdo, tema que se relaciona ao papel das plataformas na prevenção de danos. 
Alerta aos protestos “de crianças”
Embora parte da revolta seja apresentada como reação espontânea de usuários jovens, especialistas em segurança digital costumam lembrar que ambientes com chat e voz também são portas para abuso e aliciamento — e que, por isso, limitações tendem a contrariar justamente quem se beneficia da comunicação sem barreiras. Nesse contexto, há o risco de adultos mal-intencionados se passarem por crianças para inflar protestos, pressionar por recuos e manter canais de contato com menores.
A combinação entre protesto, assédio e ameaças, nesse cenário, reforça o ponto central: a proteção de crianças e adolescentes em plataformas massivas não é tema periférico, e medidas de segurança costumam provocar resistência, mas também podem reduzir vulnerabilidades em ambientes frequentados por milhões de usuários jovens.