O ano de 2026 se inicia com um cenário de forte tensão institucional no Brasil. Além de ser um ano decisivo nas urnas — com eleições para presidente da República, governadores, senadores e deputados —, o país entra em um ciclo marcado por transformações tecnológicas profundas, avanço do crime organizado e questionamentos inéditos sobre a atuação e a imagem do Poder Judiciário.
No centro desse contexto está a Justiça, chamada a lidar simultaneamente com disputas eleitorais sensíveis, novos riscos trazidos pela inteligência artificial e cobranças crescentes por transparência, ética e controle interno, especialmente nos tribunais superiores.
Eleições sob risco de judicialização e desinformação digital
O calendário eleitoral de 2026 já projeta um ambiente de alta judicialização. A experiência recente mostrou que disputas eleitorais tendem a migrar rapidamente para os tribunais, com ações envolvendo abuso de poder, financiamento ilícito, uso indevido de redes sociais e desinformação em larga escala.
O avanço da inteligência artificial adiciona um elemento novo e desafiador. Ferramentas capazes de gerar imagens, vídeos e áudios hiper-realistas ampliam o risco de deepfakes, fraudes informacionais e manipulação do debate público. Para a Justiça Eleitoral, o desafio será equilibrar rapidez de resposta, preservação da liberdade de expressão e garantia da legitimidade do processo democrático — em um ambiente tecnológico que evolui mais rápido do que a legislação.
Crime organizado e pressão sobre o sistema de Justiça
Outro eixo central de 2026 é o fortalecimento do crime organizado, especialmente em áreas como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, facções prisionais e crimes financeiros sofisticados. A expansão dessas organizações pressiona diretamente o Judiciário, o Ministério Público e as forças de segurança, exigindo decisões rápidas, coordenação institucional e proteção às garantias fundamentais.
Ao mesmo tempo, cresce a sensibilidade política em torno de investigações complexas, que envolvem grandes grupos econômicos, instituições financeiras e agentes com poder político. Esse cenário amplia o escrutínio público sobre a imparcialidade e a independência dos julgadores.
Código de conduta no STF: transparência ou resistência interna?
Nesse ambiente de cobrança por legitimidade, ganha força o debate sobre a criação de um código de conduta para ministros do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores, proposta defendida pelo presidente do STF, ministro Edson Fachin.
A ideia é estabelecer regras claras sobre participação em eventos patrocinados, recebimento de cachês, uso de jatinhos privados, conflitos de interesse e transparência patrimonial — nos moldes de cortes constitucionais de países como Alemanha, Estados Unidos e França.
A proposta, no entanto, enfrenta resistência interna. Parte dos ministros vê o debate como inoportuno ou teme que o código seja usado politicamente para fragilizar o tribunal em um momento de tensão com o Congresso e setores da sociedade. Ainda assim, ex-presidentes do STF e juristas renomados têm defendido que a adoção de regras explícitas não enfraquece a Corte, mas protege sua autoridade moral e sua independência.
Casos envolvendo familiares de ministros ampliam o desgaste
O debate ganhou novo fôlego após reportagens revelarem relações profissionais entre o banco Master e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, além da proximidade de Dias Toffoli com o advogado da instituição financeira. Embora não haja, até o momento, decisão judicial que aponte ilegalidade, os episódios reacenderam questionamentos sobre conflitos de interesse, aparência de imparcialidade e necessidade de regras mais objetivas de conduta.
Especialistas em direito constitucional e ética pública ressaltam que, em tribunais constitucionais, não basta a ausência de ilegalidade formal: a confiança pública depende também da percepção de independência e neutralidade.
Justiça entre tecnologia, política e legitimidade
Em 2026, o Judiciário brasileiro estará no epicentro de transformações profundas. Terá de responder a eleições polarizadas, crimes cada vez mais sofisticados, impactos diretos da inteligência artificial e cobranças por maior transparência interna.
O desafio não será apenas decidir processos, mas preservar credibilidade institucional em um ambiente de alta pressão política e social. A forma como o sistema de Justiça enfrentará esses temas, da regulação da IA ao debate sobre ética no topo do Judiciário, ajudará a definir não apenas o ano eleitoral, mas o grau de confiança da sociedade nas instituições nos próximos anos.