Entenda o esquema de venda de decisões judiciais envolvendo o STJ, segundo a PF

O esquema envolvia gabinetes do STJ, advogados, lobistas e empresários
Fachada do STJ
O relatório parcial enviado ao STF não aponta o envolvimento direto de ministros do STJ. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A Polícia Federal identificou um esquema de venda de decisões judiciais no STJ, operado por servidores, advogados e empresários. O grupo usava linguagem codificada e contratos de fachada para negociar sentenças favoráveis. A PF encontrou indícios como relógios de luxo e movimentações atípicas, e pediu a manutenção das medidas contra os investigados.

A Polícia Federal afirma ter descoberto um esquema estruturado de manipulação e venda de decisões judiciais que envolvia gabinetes do Superior Tribunal de Justiça (STJ), advogados, lobistas e empresários — especialmente do agronegócio.

O relatório parcial foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) na sexta-feira (10), e não aponta o envolvimento direto de ministros do STJ. As informações foram divulgadas inicialmente pelo jornal ‘O Estado de São Paulo’.

Como o esquema funcionava, segundo a PF

De acordo com as investigações, o grupo mantinha um “mercado paralelo de influência”, no qual eram firmados contratos milionários de advocacia e consultoria para garantir decisões previamente combinadas — substituindo o trabalho jurídico legítimo por corrupção e tráfico de influência.

O esquema se dividia em três núcleos principais:

• Servidores ligados a gabinetes do STJ, responsáveis por vazar informações sigilosas e antecipar minutas de decisões;

• Advogados e lobistas, que buscavam clientes dispostos a pagar por decisões favoráveis;

• Empresários, especialmente do setor do agronegócio, que se beneficiavam diretamente das sentenças.

O operador e o “código” das negociações

A PF aponta o lobista Andresson de Oliveira como o principal operador do esquema. As mensagens interceptadas revelam o uso de linguagem cifrada para disfarçar as tratativas ilegais. Expressões como “a obra está pronta” indicavam que a minuta da decisão já estava finalizada; “faltam os retoques do patrão” significava que aguardava apenas a assinatura do magistrado; e “orçamento” fazia referência ao valor cobrado pela manipulação.

A PF observou ainda que os diálogos e as movimentações processuais ocorriam quase simultaneamente, o que indicaria que as minutas circulavam entre os envolvidos antes da publicação oficial.

Buscas e apreensões

Em novembro de 2023, Daimler Alberto de Campos, Márcio José Toledo Pinto e Rodrigo Falcão de Oliveira Andrade foram alvos de mandados de busca e apreensão e afastados de suas funções no STJ.

Na casa de Rodrigo Falcão, os investigadores encontraram três relógios Rolex, um deles avaliado em R$ 106 mil, pago em espécie — indício de enriquecimento incompatível com sua função pública.

Situação atual

O relatório preliminar da PF pede mais tempo para aprofundar as investigações e manter as medidas cautelares contra os servidores afastados, para evitar a reativação do esquema dentro do tribunal.

À TV Globo, o STJ informou que não comentará o caso por estar sob sigilo no STF. Já a defesa de Daimler Campos afirmou que o cliente teve o nome usado de forma indevida e que uma sindicância interna do tribunal não encontrou indícios de envolvimento.

As defesas de Márcio Toledo Pinto e Andresson de Oliveira não se manifestaram, e o advogado de Rodrigo Falcão não foi localizado pela emissora.

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